Dora Kramer elenca os “traços de união” entre Lula e BolsonaroHeron Cid

Sempre certeira, a jornalista Dora Kramer elenca com perícia as semelhanças de ação política entre o presidente Bolsonaro e o ex-presidente Lula. O diagnóstico, claro, causa sempre furor entre os devotos de um e os fanáticos do outro. Mas, fazer o quê? É do ofício de enxergar.

Daqui em diante, é com a colunista de Veja. Por favor, leia até o fim!

Traços de união

Nada irrita mais os adoradores de Jair Bolsonaro e de Luiz Inácio da Silva que o traçar de paralelos entre um e outro. Chamam isso de “falsa equivalência” decorrente da má-fé dos implicantes. O tema vai e volta. Voltou recentemente a propósito da ambiguidade de ambos na condenação à Rússia de Vladimir Putin na invasão da Ucrânia. Não é, no entanto, o único exemplo em que se assemelham na ação e no pensamento.

A listagem é longa e robusta, não obstante as diferenças na forma de expressão dessas similitudes. Bolsonaro é um insensível por formação e convicção, um desagregador nato. Lula é um ás no manejo dos afetos individuais e coletivos, dono de um singular poder de atração.

Situados formalmente em campos ideológicos opostos, os dois são mestres em criar identificação com os respectivos públicos-alvo, com reforço à imagem de “homem comum” temperado por pitadas de ressentimento e destreza na produção de distrações quando assim lhes interessa.

Além do talento para as artes do ilusionismo, o que mais os faz parecidos? Os seguintes traços de união:
– Ambos cultuam a mitologia em torno de si.
– Comportam-se como se fossem heróis.
– Por atuação ou omissão tratam de reduzir o papel e a importância dos que julgam capazes de lhes fazer sombra.
– Privilegiam o instinto em detrimento do conhecimento.
– Em algum momento compartilharam o desprezo pelo Congresso — na visão de um, composto de “300 picaretas”; na concepção de outro, reduto da “velha política” —, ao qual foram obrigados a se render.
– Revelam aversão à imprensa profissional, mas fazem uso dela na presença constante no noticiário a fim de se manter em evidência.
– Dividem os meios de comunicação entre amigos e inimigos de acordo com o grau de dependência de cada um.
– Manifestam intolerância ao contraditório.
– Exibem nível elevado, não raro desmedido, de autoconfiança.
– Têm como hábito o uso da vulgaridade na linguagem.
– Atuam no modo de combate permanente, como se no universo deles o conflito fosse uma constante e a existência de um antagonista hostil, uma necessidade premente. Assim, atiçam embates de divisões entre grupos sociais.
– Notabilizam-se pelo excesso de informalidade no exercício do cargo.
– Expressam de maneira extremada e simplificada sentimentos existentes na sociedade de modo a manipular aflições, demandas e frustrações.
– Não só prezam, como valorizam a obediência alheia.
– Consideram o exercício da oposição uma ofensa pessoal quando são eles os ocupantes do poder. Na situação oposta, vale tudo e mais um pouco.
– Nenhum dos dois aprecia agências reguladoras. São contrários à independência delas e acham que devem ser reguladas pelo governo.
– Desdenham, quando não criticam duramente, as instâncias de fiscalização (oficiais e extraoficiais) que enxergam como obstáculos à liberdade para governar.
– Impacientes com a mediação dos canais institucionais, preferem a comunicação direta com o público.
– Diante de denúncias que envolvem o governo, auxiliares ou familiares tendem a não assumir responsabilidades, atribuindo culpa a alguém ou a alguma circunstância.
– Nutrem gosto por fantasias persecutórias, também conhecidas por mania de perseguição.
– Acalentam a ideia de dominar o Supremo Tribunal Federal.
– Sofrem rejeição no eleitorado feminino.
– Transitam com conforto por terrenos de ditaduras amigas e delas parecem incorporar a visão de que adversários devem ser politicamente aniquilados.
– Assumem o papel de profetas. Das boas previsões sobre os efeitos de seus feitos e dos maus presságios em relação aos inimigos.
– Apresentam-se como os únicos e legítimos defensores do “povo”.

Os ingredientes acima listados, e outros tantos que escapam à memória ou não fazem parte do rol de semelhanças entre Bolsonaro e Lula, integram o receituário do populismo com suas táticas antigas, mas ainda (cada vez mais?) muito em voga neste mundo que pretenderíamos moderno. Portanto, não surpreende que, ao se completarem 37 anos de redemocratização, o Brasil ainda esteja refém de uma agenda eleitoral regressiva.

Publicado em VEJA de 16 de março de 2022, edição nº 2780