Filhos de Jango, Herzog e Rubens Paiva rebatem militares pró-ditaduraBlog do Noblat

A enfática defesa da ditadura feita pelos generais do governo e pelo próprio presidente Jair Bolsonaro no 31 de março, ontem, foi rechaçada por filhos de opositores daquele regime que viveram as maiores violações do período de exceção: morte, tortura, prisão, desaparecimento e exílio.

O ministro da Defesa (Braga Netto) e os três comandantes militares assinaram uma Ordem do Dia pela data exultando o regime e afirmando que o golpe fortaleceu a democracia. O vice-presidente, general Hamilton Mourão,  postou que, com os militares no poder, “a Nação salvou a si mesmo”. E Jair Bolsonaro discursou e falou que sem a ditadura o país seria hoje uma “republiqueta”.

O Blog do Noblat conversou com Vera Paiva, Ivo Herzog e João Vicente Goulart.

A professora da USP Vera Paiva é filha do deputado Rubens Paiva, que foi cassado, preso, torturado e morto pelos militares em 1971. Seu corpo nunca foi encontrado. Vera afirma que a composição do atual governo reproduz como era naquele período, com militares ocupando postos de relevância na gestão. Para ela, o país vive ainda hoje sob um regime militar.

“Vivemos um governo militar. Como são mentirosas e negacionistas essas manifestações. Se apropriam da bandeira brasileira como se eles, um grupo ideológico de extrema direita, fossem a expressão maior da sociedade. E não são. E impressiona os militares endossarem essas teses ideológicas. Se aliam a um grupo ideológico minoritário que defende a tortura e um regime totalitário e que tratam os opositores como inimigos da Pátria. Um estigma que não serve – disse Vera Paiva, que lembrou a atuação de seu pai naquele período.

“Meu pai foi cassado pelo governo de 64, nunca defendeu qualquer regime totalitário e foi barbaramente torturado em 1971. E fica carregando esse estigma de que é comunista. Essas falas do Exército (força que assinou a Ordem do Dia do Ministério da Defesa), a do vice-presidente, confundem sua posição com a Nação. Se apropriam da bandeira brasileira. É muito ruim isso. É inconstitucional. O discurso de Bolsonaro contra a principal corte do país, que tem a tarefa de defender a Constituição. É inconcebível”.

O engenheiro Ivo Herzog é filho do jornalista Vladimir Herzog, que também foi morto pelos agentes da ditadura. Em 1975, num dia de outubro,  Herzog também foi chamado ao Doi-Codi. Apareceu morto, enforcado, no dia seguinte. O Estado tentou emplacar a tese do suicídio, derrubada anos depois por uma comissão instituída na democracia, em 1996.

Ivo Herzog disse não receber com surpresa as manifestações ontem dos militares e de Bolsonaro.

“Antes mesmo de chegarem ao poder, os clubes militares celebravam o 31 de março. Esses chefes militares estão mentindo ao afirmar que não foi instituída uma ditadura após 64. Foi uma ditadura, sim. Mandatos foram cassados, pessoas se exilaram, não se podia escolher presidente. Se acham que isso é democracia, vão viver na China. Gera muita indignação. As Forças Armadas viraram uma fonte de fake news. Tudo isso para permanecer no poder” – disse Herzog.

Para o filho de “Vlado”, esses militares são saudosistas daquele período e diz que, se houver nova chance, agem da mesma forma que em 1964.

“Em vez de reconhecerem que houve um erro naquele período, preferem louvar aquilo lá. O que significa que, na cabeça deles, se aparecer um novo contexto, fazem tudo novamente. Para isso, as pessoas precisam estar alertas. Se trata de um grupo institucional do Brasil que não descarta tomar as mesmas atitudes, como as de 64, se acharem que devem”.

João Vicente Goulart é filho do ex-presidente João Goulart, deposto em 1964 pelos militares, um golpe que jogou no Brasil numa ditadura que durou 25 anos e que fechou o Congresso, cassou mandatos, censurou a imprensa e matou e desapareceu com opositores. Morreu no exílio, na Argentina, em 1976.

“A declaração de que o golpe militar de 1964, que rompeu a Constituição, matou, torturou, cassou, assassinou, fechou o Congresso Nacional a força de baionetas e coturnos, fortaleceu a democracia chega a ser fedorenta diante da histografia brasileira, da academia e da imprensa nacional livre, sem censuras nas redações e com ampla divulgação da ditadura feroz que atingiu a Nação por 21 anos de escuridão”.

João Vicente afirmou que a manifestação do ex-ministro da Defesa Braga Netto – um dos signatários da Ordem do Dia – chega a ser vergonhosa.

“Bolsonaro e Braga Neto são defensores do regime de fato e de torturadores. Como candidatos, já que devem formar uma chapa, são uma dupla das mais sórdidas diante das nações livres do mundo. Chega de bravatas e tentativas de intimidação ao povo brasileiro, está na hora de os militares retornarem a suas funções institucionais”.