Renunciar para avançar (André Gustavo Stumpf)Blog do Noblat

Renúncias fazem parte da história política brasileira. Jânio Quadros, que em 1960 era um o fenômeno eleitoral, assumiu sua candidatura à Presidência da República pela UDN, União Democrática Nacional, partido conservador. Havia atritos entre o candidato e sua legenda por causa da proposta de política externa. O candidato visitou Cuba em março daquele ano, o que naquela época era uma heresia de bom tamanho. Jânio lançou então seu recurso extremo: renunciou à candidatura à presidência. Só continuaria na sua campanha, se tivesse liberdade dar orientação a seu futuro governo.

Deu certo, recebeu as garantias, continuou sua caminhada e foi eleito com 48% dos votos. Henrique Teixeira Lott recebeu 32% e Ademar de Barros 20%. Jânio renunciou de novo em 25 de agosto de 1961. Dessa vez, o golpe deu errado. Ele deixou a presidência da República e se refugiou na base aérea de Cumbica em São Paulo na espera do movimento popular para recolocá-lo no poder. O povo não apareceu. Resultado: embarcou para o exílio. Só voltaria a política brasileira com a anistia de 1979.

A prática de renunciar para obter mais força é antiga na política nacional. O candidato João Dória ameaçou embaralhar o jogo no seu partido em São Paulo e no Brasil. Obteve o que pretendia. O presidente do PSDB reafirmou que João Dória é o candidato do partido à presidência da República e que o resultado das prévias realizadas no ano passado, continua em vigor. Este era o objetivo, reafirmar a candidatura de João Dória. Os dissidentes do PSDB observaram, desconfiados, o movimento do governador de São Paulo.

A novela da candidatura presidencial do PSDB está longe de ser resolvida. Na realidade, João Dória jamais integrou o núcleo duro do partido. Ele é considerado um arrivista que abriu o caminho com os cotovelos e foi afastando de sua frente gente importante, inclusive Geraldo Alckmin, que foi se aninhar no PSB e encontrou espaço na candidatura de Lula à presidência da República, antigo inimigo político. Tudo estaria solucionado se o atual governador de São Paulo estivesse em posição confortável nas pesquisas de opinião. Ocorre o contrário, ele frequenta índices baixíssimos ao redor de 2 ou 3 por cento das intenções de voto.

Os prazos estão pressionando os candidatos. Neste final de semana se fecha a janela partidária. Ou seja, quem trocou de partido, já decidiu. Quem não trocou, não vai mais trocar. O tamanho das bancadas no Congresso será afinal conhecido. E as candidaturas começaram a tomar corpo. Mas, o presidente Bolsonaro tem a caneta, a publicidade oficial, as empresas estatais e os bancos. Ele pode conceder aumentos, remanejar pessoas, nomear e demitir. É muito difícil vencer o poder central no Brasil.

O presidente está subindo lentamente nas pesquisas de opinião. A consequência é que o espaço para a terceira via começa a se reduzir. Sergio Moro percebeu que poderia ter maiores possibilidades ao assinar a ficha do União Brasil, mesmo que tenha que abrir mão de sua candidatura à presidência. Daqui a três meses, ele poderá estar em boa posição nas pesquisas de opinião. Reassumirá, neste caso, a candidatura à presidência. Ele está no momento, segundo as pesquisas de opinião, entre oito e dez pontos. É o terceiro colocado.

As forças políticas estão convergindo para um único nome. É difícil saber agora quem será ele. Dória e Moro, juntos fazem dez ou onze por cento dos eleitores. Ainda há Simone Tebet, que anda pela casa dos dois por cento. Sem fazer campanha, Eduardo Leite, deixou o governo no Rio Grande do Sul de olho na candidatura por intermédio do PSDB com apoio do núcleo duro do partido. Até dia 31 de maio deverão ser anunciadas as novas federações. Em julho as candidaturas terão que ser oficializadas. A partir daí o jogo será jogado.

Grandes nomes marcaram a política brasileira nos anos oitenta. Ulysses Guimarães, Marco Maciel, Severo Gomes, Thales Ramalho, Tancredo Neves, entre outros, conseguiram concluir a transição do regime militar para a plenitude democrática sem violência. Tudo caminhou na base da conversa e do convencimento. Nenhum dos acima citados enriqueceu, nem se preocupou com essa possibilidade. No período democrático, os brasileiros produziram o plano real, que acabou com a hiperinflação. Também renegociaram em melhores termos a antiga e asfixiante dívida externa, hoje inexistente. Líderes extremamente qualificados transitaram no momento certo pela história do país. É na dificuldade que surge o grande comandante. A hora é agora.

André Gustavo Stumpf, jornalista ([email protected])