E se Godot morreu? Mais: Pesquisas veem hoje derrota estável de BolsonaroReinaldo Azevedo

Repararam como se está, até agora, à espera de “algo” para as eleições de 2022? É como se uma voz dissesse na imprensa e em certo colunismo: “Algo tem de acontecer!”. Até agora, o único dado reiterado é a possibilidade, em algumas pesquisas respeitáveis, de o petista Lula (PT) vencer no primeiro turno. O diretor José Celso Martinez Correa faz uma nova encenação de “Esperando Godot”, de Beckett, no Sesc Pompéia. Leio na coluna de Nelson de Sá, na Folha, que a personagem que deveria trazer a mensagem daquele a quem se espera diz: “Godot morreu”. A espera passa a ser inútil. Obviamente não serei eu a dizer aqui que a sorte já está lançada. Não num país que viu um avião matar um presidenciável viável em 2014 e uma facada eleger um biltre em 2018. Toc, toc, toc. Se piedade lhe sobrar, Senhor, tende um tantinho de nós… Pode ser que algo aconteça. Por enquanto, o que se tem é mais do mesmo. E saibam: assim é com Moro ou sem Moro.

Antes que eu trate aqui dos respectivos números de duas pesquisas — Ipespe e Genial-Quaest — procedo a uma breve consideração sobre anúncio conjunto feito pelo MDB, União Brasil, PSDB e Cidadania: dizem que podem escolher um candidato único no dia 18 de maio. O UB ficou de apresentar seu nome para as conversas no próximo dia 14. O MDB vai de Simone Tebert. No PSDB, que formou federação com Cidadania, o escolhido deveria ser João Doria, mas Leite também pleiteia a vaga. Moro ainda se diz no jogo, agora no UB. Parcela dos dirigentes recusa sua candidatura. Luciano Bivar deve entrar como alternativa apenas para guardar um lugar que ele acha que será de Moro. Quem diria! O ex-juiz incompetente e suspeito depende da parceria com um, como chamaremos?, citricultor da política.

Será o nome desse ajuntamento a provar que Godot ainda vive? Sigamos.

PRIMEIRO TURNO – IPESPE
Nesta quarta, vieram a público os dados da pesquisa Ipespe, com entrevistas telefônicas feitas entre 2 e 5 de abril. O instituto ouviu mil pessoas, e a margem de erro é de 3,2 pontos para mais ou para menos. Na espontânea, Lula mantém os 36% de há 15 dias, e Bolsonaro (PL) oscila de 25% para 27%. Ciro Gomes (PDT) aparece com 4%, e Sérgio Moro (UB), com 2%, João Doria (PSDB), André Janones (Avante) e Simonte Tebet (MDB) têm 1% cada.

O levantamento estimulado excluiu, desta feita, o nome de Moro. Nesse caso, Lula fica com 44%, Bolsonaro, com 30%; Ciro com 9%; Doria, com 3%; Tebet, com 2%, e Janones com 1%. Cenário parecido foi testado há 15 dias, mas incluindo o nome do ex-juiz: ficava com 9%. Sem ele, o atual presidente saltou de 26% para 30%, com oscilações positivas de Ciro (de 7% para 9%), de Doria (de 2% para 3%) e de Tebet (de 1% para 2%).

Pode escapar a muitos, mas, nesse cenário, Lula poderia, sim, vencer a eleição no primeiro turno. Seus adversários somam 45%, contra os seus 44%. Está na margem de erro.

O Ipespe publica um quadro com os números obtidos pelos candidatos a cada rodada quinzena. Cenários não podem ser comparados porque muita gente foi ficando pelo meio do caminho. Lula chegou a 40% em agosto do ano passado e nunca caiu abaixo desse índice em 12 pesquisas: sua pontuação máxima foi 44%, como agora, o que aconteceu cinco vezes. Bolsonaro chegou a 28% em setembro do ano passado (agora, 30%). De lá para cá, nunca caiu abaixo dos 24%. Moro, vejam vocês, tinha 17% em janeiro de 2020. Começou a cair, chegando a 7% em junho de 2021. Ganhou um respiro em novembro, quando se disse pré-candidato (11%), mas não se sustentou. Desde janeiro do ano retrasado, Ciro nunca passa dos 11%, Há 15 dias, tinha 7% e oscila, agora, para 9% sem a presença de Moro. Doria obteve a melhor marca em setembro do ano passado: 5%. Nas nove últimas rodadas, entre 2% e 3%. A verdade é que o quadro tem sido bastante estável.

PRIMEIRO TURNO – QUAEST
Pesquisa Genial-Quaest divulgada nesta quinta testou seis cenários no primeiro turno. Ouviram-se presencialmente duas mil pessoas entre os dias 1º e 3 de abril. A margem de erro é de dois pontos. Há as mais variadas combinações: com e sem Moro; com e sem Doria; com e sem Leite… Em todos, o petista ainda poderia faturar a eleição na primeira rodada.

Cenário Um: com todos
Lula (44%), Bolsonaro (29%), Moro (6%), Ciro (5%), Janones (3%), Doria (1%), Tebet (1%). Ninguém mais pontuou. Os adversários de Lula somam 45%.
Uma nota: no mês passado, testou-se composição quase idêntica, e Bolsonaro estava com 25%. Ciro aparecia com 7%, e Doria, com 2%

Cenário Dois (sem Sérgio Moro)
Lula (45%), Jair Bolsonaro (31%), Ciro (6%), Janones (2%), Doria (2%), Tebet (1%), Verá Lúcia (PSTU), 1%. Juntos, os opositores de Lula têm 43%.

Cenário Tês (apenas com Lula, Bolsonaro, Moro, Janones e Doria):
Lula (45%), Bolsonaro (29%), Moro (7%), Ciro (6%). Doria (2%). Adversários de Lula têm 44%.

Cenário Quatro (Sem Moro e sem Tebet; com Luiz Felipe Dávila (Novo):
Lula (44%), Bolsonaro (31%), Ciro (6%), Janones (3%), Doria (2%), Luiz Felipe Dávila (1%). Oponentes de Lula somam 43%.

Cenário Cinco (Sem Moro e com Tebet com único nome alternativo, além de Ciro)
Lula (46%), Bolsonaro (32%), Ciro (7%), Tebet (2%). Adversários do petista somam 41%.

Cenário Seis (Sem Moro, com Ciro e Eduardo Leite (PSDB) como nome da terceira via:
Lula (46%), Bolsonaro (31%), Ciro (7%). Leite (2%). Os que se opõem ao ex-presidente somam 40%.

Algumas evidências presentes a essas simulações:
– mesmo nos cenários com Moro, Bolsonaro mostrava tendência de crescimento discreto, e o ex-juiz de que estava murchando;
– para Ciro, é irrelevante Moro disputar ou não; pode ser que esteja encolhendo;
– candidatos à terceira via não se beneficiam da eventual desistência do ex-juiz;
– dados os cenários acima, o quadro com menos candidatos deixa o cenário mais folgado para Lula.

SEGUNDO TURNO
No levantamento Ipespe, Lula venceria Bolsonaro no segundo turno por 53% a 33% — 54% a 31% há 15 dias. O atual presidente está no patamar dos 30% há 14 levantamentos. Na primeira semana de janeiro, chegou a 30%. Agora, 33%, mesmo número de há um mês.

O petista atingiu o patamar de 40% em março de 2021 e nele ficou até julho do ano passado (49%). Saltou para o de 50% em agosto de 21% e nunca mais caiu. Seu melhor número se deu na primeira quinzena de janeiro: 56%. Nas últimas seis pesquisas, marcou quatro vezes 54% e duas vezes 53%.

Nas demais simulações, há absoluta estabilidade. O petista bate Ciro por 52% a 25%; Doria, por 55% a 20%. No Ipespe, o candidato do PDT venceria o atual presidente Por 47% a 37%. Doria perde terreno par Bolsonaro: o ex-governador ficou numericamente à frente do presidente em 11 levantamentos, algumas vezes fora da margem de erro. No desta quarta, houve uma inversão: 39% a 38% para Bolsonaro.

No levantamento Genial-Quaest, Lula tem 55%, e Bolsonaro, 34%. Essa pesquisa é feita desde julho do ano passado, quando o ex-presidente marcou 54%, e o atual 33%. Em 10 levantamentos, Lula obteve o menor número em outubro do ano passado: 53%, e Bolsonaro em novembro: 27%. Vocês são capazes de reconhecer um quadro absolutamente estável quando diante de um?

A título de ilustração da tese, outros números sobre segundo turno da Quaest. Os dados entre parênteses se referem a março:
Lula 55% X 25% Moro (53% a 26%)
Lula 55% X 22% Ciro (51% a 23%)
Lula 58% X 16% Doria (56% a 15%)
Lula 58% X 17% Leite (57% a 15%).

E o processo político segue esperando Godot.

REJEIÇÃO
Também quando se veem os dados sobre rejeição, quase nada muda. Nos 16 últimos levantamentos do Ipespe, entre 43% e 47% dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum. Mas atenção: os 47% se referem a abril do ano passado; agora, são 43%. Desde novembro do ano passado, entre 41% e 44% dizem que votam nele com certeza. No momento, 44%

Nestes mesmos 16 levantamentos, entre 56% (abril de 2021) e 64% (janeiro) dizem que jamais escolheriam Bolsonaro — no mais recente, 61%. Na primeira pesquisa desta série, 28% escolheriam o atual presidente com certeza; hoje, são 29%. O máximo que ele obteve foi 30%.

Já há nove pesquisas, a rejeição a Ciro fica entre 43% (hoje) e 45%. No período, a mínima de Doria foi de 53% e a máxima de 59% — hoje, 57%

A rejeição, como se sabe, é uma estranha parceria do “desconhecimento”.

A Quaest já fez oito pesquisas mensais. Na primeira, em setembro do ano passado, 62% não votariam em Bolsonaro. Agora, 61%, Houve um pico em novembro de 67%. No primeiro levantamento, rejeitavam Lula 40% dos entrevistados; hoje, 42%. Sua melhor marca foi 39% (novembro de 2021), e a pior, 43% (novembro e dezembro do ano passado).

Ciro iguala agora a sua pior marca: 58% — a mesma de janeiro. A melhor se deu em setembro e novembro: 53%. Doria teve um pico negativo (68%) em novembro; e o menor índice ocorreu em setembro do ano passado: 57%.

No Ipespe, desde a primeira quinzena de janeiro deste ano, 58% ou 59% acham que Lula vai vencer as eleições. São sete levantamentos. Dizem que será Bolsonaro entre 28% e 31% — números de agora.

CAMINHANDO PARA A CONCLUSÃO
MDB, PSDB (com Cidadania) e União Brasil dizem que ainda definirão um candidato único. Será esse o elemento novo a mudar o quadro? O destino prepara algum novo sortilégio? Tomara que não!

Ontem, chegou-me um texto que circula no mercado financeiro com uma análise que é pura especulação: parte do princípio de que Bolsonaro mudou o discurso, abandonando o radicalismo. É mesmo? Em menos de uma semana, pregou golpe duas vezes. De resto, colhe uma penca de notícias negativas oriundas do Ministério da Educação e da Petrobras.

O presidente avançou um tantinho em março, mas isso não se deu no confronto com Lula. Os adversários no campo da direita andaram batendo cabeça, e tudo indica que o presidente está apenas recuperando um pedaço do eleitorado que era seu.

Por enquanto, os dados das pesquisas Ipespe e Quaest, quando se consideram as respectivas séries, indicam absoluta estabilidade do quadro.

Isso quer dizer que Lula pode cometer erros à vontade? Bem, ninguém pode cometer erros à vontade, não é mesmo?