O Brasil na mira do lobo solitário (por Felipe Sampaio)Blog do Noblat

Os ‘lobos solitários’ praticam um terrorismo freelancer, sem filiação a facções. Podem viver entre nós sem notarmos. Hoje em dia já são tantos, que nem dá pra chamar de solitários.

O sujeito alopra intoxicado por fake news, faz uma bomba na garagem e, depois de beber guaraná jogando videogame, sai de bicicleta para matar alguém importante. O assassinato do ex-premier japonês mostra a natureza desses ‘militantes de si próprios’.

O ressurgimento mundial de ideologias preconceituosas (turbinado pela internet) tem estimulado esses rebeldes individuais desprovidos de senso da realidade. Uma matrix de algoritmos e bots raciocina por eles.

Às vezes, é difícil apurar se o agressor era de fato um lobo solitário. Nos EUA, Lincoln foi abatido por um deles em uma peça de teatro e Kennedy foi morto pelo polêmico Lee Oswald (ambos os casos mergulhados em controvérsia).

Já o ator Ronald Reagan, no papel de Presidente, escapou por pouco de um lobo apaixonado que se sentira solitário ao ser ignorado pela atriz Jodie Foster (um caso clássico de “lobo bobo”).

Não ficou claro se o lobo bósnio que matou o Arquiduque Ferdinando (pretexto para a Grande Guerra) era mesmo solitário ou se agiu a mando do esquadrão Mão Negra.

Gandhi foi vítima de um extremista hindu, que parece ter agido por conta própria, embora não fosse o único a querer o fim das tratativas com os mulçumanos (não confundir solitário com sozinho).

No Brasil, em 2018, um candidato foi atacado por um indivíduo com uma faca de cozinha, num episódio típico de lobo solitário. Se as feridas da vítima cicatrizaram, as do país seguem abertas.

Em 2022, candidatos, autoridades e eleitores precisarão redobrar os cuidados. É possível que as eleições deste ano estejam vulneráveis a lobos solitários.

As primeiras investidas já começaram, com o uso de drones e bombas caseiras contra eventos políticos, e ataques à bala a festas temáticas.

A democracia brasileira tem sido desafiada nos últimos anos e não suportaria um ataque de lobo solitário a qualquer um dos candidatos ou aos Poderes constitucionais durante as eleições.

Caberá aos políticos, às elites e às Instituições que constituem o sistema democrático de freios e contrapesos pacificar o ambiente, dissuadir as aventuras e conter os desdobramentos.

Afinal, se alguns lobos são solitários, por sua vez, aqueles que valorizam a democracia preferem trabalhar juntos. Do contrário, continuaremos destinados a passar a boiada, seguir o baile e fechar o caixão.

 

Felipe Sampaio – ex-assessor especial dos ministros da Defesa (2016-2018) e da Segurança Pública (2018); foi secretário executivo de Segurança Urbana do Recife; membro do Centro Soberania e Clima.