Prevista para ser concluída nesta quinta-feira (22), a venda da operação do TikTok nos Estados Unidos envolve a entrada da Oracle e do fundo MGX, ligado à família real dos Emirados Árabes Unidos, na gestão de dados e no controle decisório da plataforma. A transação, avaliada em US$ 14 bilhões, atende a exigências do governo americano em nome da segurança nacional e reduz a participação de 80% da chinesa ByteDance, que manterá fatia residual de 20%.
Pressão política e mudança de controle
A mudança decorre de medidas iniciadas ainda no primeiro mandato de Donald Trump e reforçadas durante sua campanha de reeleição. O acordo determina que a Oracle ficará responsável pelo armazenamento dos dados de cerca de 170 milhões de usuários do TikTok nos EUA, enquanto o MGX atuará como sócio estratégico para atender às demandas do executivo americano.
Segundo o vice-presidente dos EUA, James Vance, o negócio consolida “um dos maiores investimentos em tecnologia e segurança” do país. Para especialistas, no entanto, existe um paradoxo entre a defesa do livre mercado e o uso de preceitos de segurança nacional para restringir a atividade de plataformas digitais.
“Os Estados Unidos usam argumentos de segurança para controlar dados de sua população, impactando tanto o mercado quanto a liberdade de expressão”, avalia Andressa Michelotti, pesquisadora da UFMG e da Universidade de Utrecht. Ela também questiona como será a arquitetura do novo TikTok americano, se manterá interoperabilidade com outras versões ou se haverá isolamento completo da plataforma.
Reações da China e estrutura de capital
Apesar de a ByteDance sustentar operar de forma transparente e independente do governo chinês, o Ministério do Comércio da China expressou desejo de que as partes cheguem a um acordo “em conformidade com as leis chinesas” e que equilibre interesses de ambos os países.
Atualmente, 60% do capital do TikTok está aberto a investimentos internacionais, incluindo fundos como BlackRock e General Atlantic, enquanto 20% é detido pelos empregados – entre eles os 7 mil funcionários nos EUA – e 20% pelos fundadores, como Zhang Yiming.
Impactos e próximos passos no Brasil
No Brasil, a ByteDance afirma que a joint venture americana não afetará a operação local. A empresa assegura que “os planos para o mercado brasileiro seguem inalterados” e que a experiência dos usuários não deve sofrer mudanças.
Entretanto, analistas apontam que o caso americano reforça a necessidade de debate sobre soberania tecnológica e regulação de grandes plataformas. Rafael Evangelista, professor da Unicamp e conselheiro do CGI.br, destaca a importância de definir regras claras sobre onde as empresas estão sediadas, a quem respondem e quais interesses geopolíticos representam.
Enquanto isso, no Ceará, começaram no dia 15 as obras de um data center dedicado ao TikTok, em Caucaia. O empreendimento, com capacidade de 200 MW, terá fonte de energia solar e eólica e está orçado em cerca de R$ 200 bilhões, com operação a cargo da OMNIA, braço do Grupo Pátria.
No Legislativo brasileiro, o Projeto de Lei de Concorrência Digital (PL 4675/2025) aguarda votação, propondo dar ao Cade poderes para regular mercados digitais e mediar fusões e aquisições. Paralelamente, a Lei 15.211/2025, que estabelece diretrizes para proteção de crianças em redes sociais, entrou em vigor no ano passado.
Com esses movimentos, a discussão sobre governança e moderação de conteúdo digital ganha força, em meio a pressões por transparência e respeito à privacidade dos usuários, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.
Com informações de Agência Brasil




