Transmissão: Band
O jornalista e escritor Phelipe Caldas iniciou pesquisa para um livro-reportagem sobre a trajetória de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, que morreu em 30 de novembro de 2025 após invadir o recinto de uma leoa no Parque Arruda Câmara, a Bica, em João Pessoa. Caldas é autor de O menino que queria jogar futebol, obra que inspirou o filme Inexplicável, que chegou ao Top 3 global da Netflix.
Segundo o autor, a decisão de aprofundar o caso surgiu da insatisfação com a cobertura jornalística imediata. “Eu fiquei muito impactado com tudo o que aconteceu, a forma como o assunto foi explorado. Vi muito profissional de imprensa fazendo uma cobertura de uma forma que eu considero irresponsável, com muita pressa em trazer conclusões, em trazer respostas, então promove muita violência, muito preconceito e muito estigma”, afirmou em entrevista ao Jornal da Paraíba.
A transformação da apuração em livro foi sugerida pelo jornalista Luiz Fernando Dalpian, que, ao notar a frustração de Caldas, o encorajou a conduzir uma investigação sem a pressão do cotidiano jornalístico. “Ele é da teoria que tem certos assuntos que o jornalismo cotidiano não consegue dar conta, mesmo o jornalismo mais sério, porque é pouco tempo para apurar tudo, é pouco espaço para dizer tudo, e ele comentava comigo que tem algumas questões que só um documentário, um livro-reportagem, uma pesquisa de longa duração é capaz de responder”, relatou o autor.
O trabalho de Caldas busca ir além do episódio da morte e reconstruir a vida de Gerson, marcada por pouco convívio familiar e por passagens por instituições de acolhimento. “Nesse trabalho de pesquisa eu já entrevistei 40 pessoas, provavelmente vou entrevistar mais algumas. Outra fonte de pesquisa são os documentos públicos, já analisei mais de 10 mil páginas de documentos que tratam da vida de Gerson, e ajudam a contar muito da história dele”, detalhou.
O livro também deve abordar temas que permeiam a trajetória do jovem, como saúde mental, atendimento psicológico e a lei antimanicomial. “Para além da vida de Gerson, que vai ser contada em detalhes, algumas temáticas que cruzem a vida dele de alguma forma serão aprofundadas, também vai haver uma reflexão sobre isso”, disse Caldas.
Produção e previsão
A pesquisa teve início em 9 de dezembro de 2025. A obra ainda não tem editora, título definido ou data oficial de lançamento, mas o autor espera publicar até novembro, quando será completado um ano da morte de Gerson.
Inquérito arquivado
Em decisão proferida pela juíza Michelini Jatobá, a 1ª Vara Regional de Garantias arquivou o inquérito que investigava a morte do jovem, em sessão realizada na última quarta-feira (11). O documento judicial concluiu que não há indícios de participação de terceiros no episódio, indicando que Gerson entrou voluntariamente no recinto da leoa, apesar dos avisos dos guardas.
O relatório menciona ainda que relatos sobre o histórico de saúde mental da vítima, trazidos pela conselheira tutelar Verônica Silva de Oliveira, apontam para vulnerabilidade psíquica que pode ter influenciado sua decisão. A decisão judicial também citou laudo do Ibama confirmando que o Parque Arruda Câmara atende às normas de segurança, com muros de cerca de 8 metros e telas inclinadas para impedir invasões. Investigações incluíram oitivas de guardas municipais, funcionários do parque, familiares e uma conselheira tutelar, além de perícias e exame do corpo.
Contexto da vida de Gerson
Gerson tinha esquizofrenia e não recebia acompanhamento psicológico contínuo. A família apresentava histórico de transtornos mentais: a mãe perdeu o poder familiar e o pai era ausente; os quatro irmãos foram adotados. Criado em instituições de acolhimento até a maioridade, ele não foi adotado e, após os 18 anos, passou a viver por conta própria, acumulando passagens por serviços psiquiátricos e pelo sistema prisional.
Um mês antes da morte, a Justiça determinou internação em instituições de longa permanência para tratamento psicológico, decisão do juiz Rodrigo Marques de Silva Lima que não chegou a ser cumprida. Uma semana antes do episódio na Bica, Gerson foi detido após lançar uma pedra contra uma viatura da Polícia Militar. Uma prima descreveu o comportamento do jovem: “Das vezes que ele foi preso, a maioria era por jogar uma pedra na viatura, porque ele queria se sentir seguro… Era um menino neurodivergente que tinha mentalidade de 4 anos”.
O autor espera que o livro contribua para o debate sobre abandono e vulnerabilidade social que, segundo ele, extrapolam o caso individual.
Com informações de Jornaldaparaiba



