A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025 para investigar supostas fraudes envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, atingiu a confiança dos clientes e vem afetando o dia a dia dos quase 5 mil empregados do BRB, segundo o diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal, Daniel Oliveira.
Oliveira afirmou que a sociedade e os trabalhadores estão “pagando a conta” de decisões políticas relacionadas à tentativa de salvar o Master, que incluíram negociações para que o BRB adquirisse parte do banco privado por R$ 2 bilhões. As tratativas antecederam a rejeição da compra pelo Banco Central em setembro de 2025 e a liquidação extrajudicial do Master em novembro do mesmo ano.
De acordo com o sindicato, funcionários concursados, terceirizados e estagiários relatam aumento do estresse no ambiente de trabalho. Analistas que acompanharam as negociações com o Master têm sido acionados para prestar depoimentos à Polícia Federal e a auditores, em investigações que mencionam créditos comprados do banco de Daniel Vorcaro, preso desde o início de março.
O sindicato relatou que clientes passaram a procurar agências preocupados com a solidez do BRB e com riscos a aplicações. Trabalhadores têm sido incumbidos de tentar assegurar a manutenção dos investimentos, apesar de apontarem não ter respostas completas sobre os fatos — o que, segundo Oliveira, aumenta a apreensão interna, já que empregos e carreira também estariam em risco.
Segundo o dirigente, parte dos funcionários demonstrou indignação e apatia, especialmente porque, conforme ele, indícios de irregularidades foram percebidos por empregados antes da divulgação pública da operação. O sindicato diz ter denunciado em novembro de 2024 a primeira compra e venda de carteira do Master ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Impacto financeiro e institucional
A preocupação alcança cerca de 3 mil aposentados cujos planos de saúde e previdência complementar dependem do BRB. A Previdência BRB divulgou que dispõe de um patrimônio superior a R$ 4,39 bilhões, com recursos segregados dos patrocinadores e instituidores, e afirma autonomia na gestão.
O BRB tem mais de 60 anos de existência e administra mais de R$ 80 bilhões em ativos de mais de 10 milhões de clientes, argumento usado pela instituição para sustentar que pode absorver perdas com aportes de curto prazo. Ainda assim, a agência de classificação Moody’s rebaixou a nota do banco devido à falta de clareza sobre o impacto da compra de ativos do Master e à ausência de um plano de recuperação definido, apontando necessidade de “injeção relevante de capital”.
Institucionalmente, o BRB tem se comunicado por meio de avisos aos acionistas, comunicados ao mercado e fatos relevantes, e orientado dirigentes e funcionários a não conceder entrevistas. Em ambiente digital, o banco veiculou campanha assegurando estar “firme e forte”.
Nelson de Souza, que assumiu a presidência no lugar de Paulo Henrique Costa — afastado por decisão judicial e preso preventivamente na quarta fase da Operação Compliance Zero em 16 de abril — justificou ausência em audiência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Distrito Federal alegando necessidade de aguardar auditorias e a análise do balanço consolidado de 2025. A CCJ aprovou convocação obrigatória para que ele preste depoimento em data a ser definida.
Projetos e alternativas
O cenário levou à paralisação de projetos de expansão do BRB para outros estados, afetando planos de transferência de funcionários e a convocação de cerca de 400 aprovados no concurso de 2022. A estratégia de crescimento, que incluiu a gestão de folhas de pagamento e a criação do banco digital Nação BRB Fla, com quase 4 milhões de clientes, perdeu impulso antes mesmo da operação da PF.
Celina Leão, governadora do Distrito Federal, afirmou que o banco não vai quebrar e que a diretoria estuda medidas, cabendo a decisão final ao BRB. Ela também declarou que uma solução seria apresentada em até 30 dias, prazo criticado por dirigentes sindicais.
O economista e professor da Universidade de Brasília César Bergo alertou que a não divulgação do balanço de 2025 agrava a crise de confiança e pode sujeitar o BRB a multas do Banco Central e da CVM, citadas em valores superiores a R$ 50 mil por dia. Bergo enumerou alternativas para enfrentar a crise: capitalização pelos sócios — sobretudo pelo GDF — empréstimos do Fundo Garantidor de Créditos ou de outros bancos, intervenção federal com federalização do banco, ou privatização.
A Agência Brasil tentou contato com o BRB e com a defesa de Paulo Henrique Costa, sem obter resposta até a publicação desta reportagem. Em nota, a governadora Celina Leão afirmou que os fatos sobre o ex-presidente do BRB estão sob análise do Poder Judiciário e que todas as providências cabíveis foram adotadas, com colaboração às autoridades competentes.
Com informações de Agência Brasil



