Campina Grande e Lagoa Seca (PB) — Uma série sobre maternidade atípica mostra como mulheres que cuidam de filhos com deficiências, transtornos ou condições que exigem acompanhamento contínuo enfrentam jornadas de cuidado intensas, com rotinas marcadas por terapias, consultas e adaptação familiar. Em Campina Grande e Lagoa Seca, três mães — Edivânia, Andreza e Mônica — relataram à Rede Paraíba os principais desafios vividos desde o diagnóstico dos filhos.

Edivânia e o diagnóstico de autismo de Davi

Edivânia recebeu o laudo de que o filho Davi estava no espectro autista em fevereiro de 2020, no início da pandemia de Covid-19, quando a família também lidava com o isolamento social. O momento foi descrito por ela como cercado de medo diante do desconhecido. A adaptação à nova rotina trouxe dificuldades no tratamento, episódios de preconceito no cotidiano e impacto direto na saúde mental da mãe.

Em função da sobrecarga, Edivânia relata ter buscado ajuda psicológica e apoio da família, o que mudou sua forma de viver a maternidade atípica. A filha e irmã de Davi, Maria Eduarda Queiroz, destaca a dedicação da mãe na busca por terapias, informações e suporte que contribuíram para a evolução do irmão.

Atualmente, além de mãe, Edivânia atua como ativista e produtora de conteúdo sobre autismo. Ela afirma que a maior meta é conquistar autonomia para Davi: “tornar Davi independente é a minha maior luta”, diz a mãe.

Andreza e Antony: diagnóstico na gestação

A mãe Andreza recebeu o diagnóstico de microcefalia para o filho Antony ainda na gestação, em 2015, após contrair o vírus da zika. Informada aos dois meses de gravidez, ela descreve o impacto emocional do momento e a incerteza quanto ao futuro da criança.

Após o nascimento e a primeira internação, Andreza interrompeu o curso de nutrição que cursava em Campina Grande para dedicar-se integralmente ao filho. A família percorre cerca de nove quilômetros entre Lagoa Seca e Campina Grande para que Antony participe de terapias no Instituto Assistencial Professor Joaquim Amorim Neto (Ipesq).

No mês anterior, Antony completou 10 anos. Apesar das dificuldades acumuladas ao longo de mais de uma década, Andreza afirma que o filho nunca foi e não será visto como um peso pela família.

Mônica: carreira na polícia e cuidados com Davi

A tenente-coronel Mônica enfrenta a rotina de cuidado com o filho Davi, nascido prematuro com 32 semanas e que ficou entubado por 27 dias. Após a internação, o menino recebeu diagnóstico de paralisia cerebral espástica — atribuído à hipóxia ocorrida no período neonatal — e, posteriormente, também de déficit cognitivo e autismo. O diagnóstico da paralisia cerebral veio durante sessões de fisioterapia na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

Mônica relata terem surgido sentimentos de culpa ao conciliar a carreira na Polícia Militar com os cuidados do filho ao longo dos 11 anos de vida de Davi. O vínculo entre mãe e filho, entretanto, é tecido por afeto e reconhecimento: o próprio Davi fala sobre o cuidado materno e o desejo de retribuir essa proteção.

Impactos emocionais, sociais e financeiros

Especialistas ouvidas na série destacam que receber um diagnóstico desse tipo costuma atravessar as mães por fases semelhantes a um processo de luto, com necessidade de apoio psicológico para alcançar aceitação. A psiquiatra Isabella Florentino aponta que negação e raiva fazem parte desse percurso e que o suporte profissional é importante no acompanhamento emocional.

Para a neuropsicóloga Débora Paz, fatores como preconceito, falta de informação e carência de rede de apoio aumentam o risco de isolamento social e problemas de saúde mental entre mães atípicas, incluindo ansiedade, depressão e burnout materno. Além disso, os custos de terapias e tratamentos, muitas vezes insuficientes pelo SUS, agravam a pressão financeira sobre as famílias.

As histórias apresentadas ilustram como o diagnóstico modifica rotinas, prioridades e projetos de vida, e mostram a importância de redes de apoio e de atenção especializada para reduzir a sobrecarga das mães que cuidam de crianças com necessidades especiais.

Com informações de G1