Moacir Santos, compositor, arranjador, maestro, pianista e saxofonista, completa 100 anos lembrado pela obra que mistura raízes nordestinas, heranças africanas e linguagem erudita do jazz. A trajetória do músico começou na década de 1940, quando, depois de fugir de casa e percorrer várias cidades, chegou a João Pessoa — cidade onde afirma ter se formado como homem e músico.
Em João Pessoa, um encontro no Parque Solon de Lucena com Dedé do Sax, então integrante da banda da Polícia Militar, levou-o a fazer um teste na corporação. Ao ser aprovado, passou também a integrar a orquestra da Rádio Tabajara, que continuou ativa até a década de 1960 após a saída de Severino Araújo para o Rio de Janeiro. Na cidade paraibana consolidou sua vida pessoal ao casar-se com Cleonice.
Natural de Flores (ou registrado em Flores), Pernambuco, Moacir perdeu a mãe cedo e não conheceu o pai. Mudou-se depois para o Rio de Janeiro e, mais tarde, para a Califórnia, onde viveu cerca de 40 anos até falecer aos 80 anos, em 6 de agosto de 2006.
No Rio, além de atuar como arranjador e instrumentista, destacou-se como professor: teve entre seus alunos nomes que marcaram a bossa nova e a música popular brasileira, como Baden Powell. Estudou com figuras importantes da música brasileira, como o alemão Hans-Joachim Koellreutter e o maestro César Guerra Peixe.
A obra de Moacir sintetiza a presença africana na música brasileira e alcança alta sofisticação. O álbum Coisas, lançado pelo selo Forma em 1965, reúne dez peças instrumentais numeradas — Coisa Número 1, Coisa Número 2 etc. — e é considerado um marco da música popular brasileira. A Coisa Número 5 tornou-se conhecida como Nanã, tema que ganhou inúmeras gravações no Brasil e no exterior.
Nanã apareceu no filme Ganga Zumba (1963), de Cacá Diegues, foi gravada por Nara Leão e popularizada por Wilson Simonal com letra de Mário Telles. Sergio Mendes incluiu Nanã em seu álbum Você Ainda Não Ouviu Nada! (1964) com arranjo assinado por Moacir.
Moacir trocou o Brasil pelos Estados Unidos atraído pela indústria cinematográfica e gravou lá o álbum intitulado Maestro, em que se apresenta na releitura de Nanã com a frase “My name is Moacir Santos”. Entre os artistas que o cultuaram ou com quem teve ligação estão Baden Powell, Sergio Mendes, Eumir Deodato, Roberto Menescal, Nara Leão, Milton Nascimento, Wagner Tiso, Gilberto Gil, João Bosco, Joyce, Djavan, Roberto Carlos e Sivuca.
Nos anos 1990, Mário Adnet e Zé Nogueira formaram a Banda Ouro Negro e lançaram o duplo e DVD Ouro Negro, que reúne interpretações de obras de Moacir e começa com Nanã, incluindo participações de Milton Nascimento, Gilberto Gil, João Bosco, Djavan, Joyce e Ed Motta. O disco encerra com Bodas de Prata Dourada, que celebra o casamento com Cleonice. Em 2005, lançou o álbum Choros e Alegria, produzido por Mário Adnet e Zé Nogueira, com participação do trompetista Wynton Marsalis.
No centenário, a obra de Moacir Santos segue reverenciada por músicos e por um grupo de ouvintes que reconhece a dimensão de sua produção. Também manteve parceria com Vinícius de Moraes, que o mencionou na letra do Samba da Bênção:
“Moacir Santos /Tu que não és um só, és tantos /Como este meu Brasil de todos os santos”.
TRANSMISSÃO: Band
Com informações de Jornaldaparaiba



