Maria da Conceição, moradora de Sousa, no Sertão da Paraíba, aprendeu a ler e escrever aos 65 anos, concluiu o ensino médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) e redigiu o primeiro livro, escrito à mão. Depois de passar a vida trabalhando no campo e criando os filhos, ela transformou em realidade um antigo desejo de estudar e publicar uma obra.
A alfabetização na terceira idade aconteceu após décadas sem acesso à escola. Na infância e juventude, Maria viveu na zona rural, onde a distância até a escola, a rotina pesada de trabalho na roça — incluindo o cultivo de algodão — e a falta de recursos financeiros impediram sua matrícula. Segundo a família, essas circunstâncias tornavam impossível conciliar estudo e trabalho.
”Morava no sítio, trabalhava na roça e a escola era muito longe. Eu chegava cansada porque trabalhei muito na roça, plantei algodão, trabalhei muito. Não tinha como estudar.” relembra Maria sobre a juventude no campo.
Retomada dos estudos
A entrada de Maria na EJA permitiu-lhe aprender no próprio ritmo, com o apoio de professores da rede local. O marido, Francisco, que havia abandonado os estudos quando jovem para trabalhar como gesseiro e ajudar no sustento da família, também voltou às salas de aula e concluiu o ensino médio ao lado da esposa.
A filha do casal, Járcia Soares, destacou o orgulho da família ao ver os pais persistirem nos estudos apesar do cansaço do trabalho: segundo ela, ambos chegaram a sair do serviço e ainda assim foram estudar para completar a escolaridade.
Dados do Ministério da Educação citados pela reportagem apontam que, nos últimos 10 anos, a EJA teve mais de 16 milhões de matrículas no Brasil, com cerca de 5 milhões na Região Nordeste; na Paraíba, aproximadamente 500 mil estudantes passaram pela modalidade no mesmo período.
Obra manuscrita e publicação
Além de concluir a escolaridade, Maria dedicou noites por meses para escrever um manuscrito sem contar à família. O material, entregue ao professor Nilson Rutizat, tinha cerca de 200 páginas escritas à mão. De acordo com o educador, a iniciativa nasceu a partir de atividades em sala nas quais ele levava livros de autores locais para mostrar aos alunos que há produção literária no Sertão.
A autora afirma que a obra é baseada na história de uma amiga de infância e traz mensagens de perseverança, fé e superação. O manuscrito já foi digitado, ganhou capa e está em processo de registro; o lançamento está previsto para acontecer até o mês de outubro. Maria também revela que já planeja uma nova publicação direcionada ao público infantil.
O casal destacou a paciência dos professores no processo de aprendizagem e a surpresa positiva com os resultados alcançados na terceira idade.
Com informações de Jornaldaparaiba



