João Pessoa – A arquiteta Daniela Marys de Oliveira, 29 anos, está presa desde o início de 2025 na penitenciária Provincial de Banteay Meanchey, no noroeste do Camboja, acusada de posse ilegal de drogas. A audiência de julgamento ocorreu na quinta-feira, 23 de outubro, e o tribunal marcou para 12 de novembro a divulgação da sentença.

Emprego no exterior e suposta fraude

Natural de Minas Gerais, Daniela mudou-se para João Pessoa em novembro de 2024. Sem conseguir vaga na área de formação, ela aceitou, no fim de janeiro de 2025, uma oferta de trabalho temporário em telemarketing no Camboja, que poderia durar até um ano. A mãe, Myriam Marys, disse ter desconfiado das condições apresentadas: alojamento isolado, com beliches e expectativa de chegada de mais funcionários.

De acordo com a família, logo após a chegada ao país asiático, golpistas usaram o celular da brasileira para exigir o pagamento de uma multa contratual de US$ 4 mil (cerca de R$ 27 mil). A quantia foi transferida, mas, depois disso, Daniela perdeu contato com os parentes.

Prisão e acusação

Pouco tempo depois, a arquiteta ligou à mãe do telefone de um policial cambojano informando que havia sido detida. Autoridades locais afirmam ter encontrado três cápsulas de droga no banheiro do alojamento. A brasileira nega a posse do material e sustenta que a substância foi plantada após ela recusar participar de um esquema de golpes virtuais. Segundo a família, Daniela chegou a solicitar teste toxicológico, mas o procedimento não foi autorizado.

Condições no presídio

Relatos de parentes indicam que Daniela divide cela com cerca de 90 mulheres. Organizações de direitos humanos apontam superlotação de 200 % nas prisões cambojanas. A penitenciária também acumula registros de inundações e, em março deste ano, foi palco da morte de um detento de 22 anos por problemas cardíacos provocados por falta de oxigênio.

Processo judicial

O código penal do Camboja prevê que, após a audiência, os juízes podem anunciar o veredicto em data posterior — procedimento adotado no caso de Daniela. Se condenada, ela poderá recorrer em instâncias superiores.

Acompanhamento do Itamaraty

O Ministério das Relações Exteriores informou, em nota, que acompanha o caso por meio da Embaixada do Brasil em Phnom Penh, “prestando a assistência consular cabível” conforme o Protocolo Operativo Padrão de Atendimento às Vítimas Brasileiras do Tráfico Internacional de Pessoas. Em 2024, o Itamaraty prestou auxílio a 63 brasileiros em situações semelhantes, 41 deles no Sudeste Asiático.

Tráfico humano na região

Para a ONG The Exodus Road, que atua no combate ao tráfico de pessoas, a história de Daniela reflete um padrão recorrente: brasileiros atraídos por falsas promessas de emprego e posteriormente coagidos a praticar crimes cibernéticos. A entidade estima que mais de 300 mil migrantes estejam em situação de tráfico humano no Sudeste Asiático.

Daniela permanece custodiada enquanto aguarda a decisão judicial agendada para 12 de novembro.

Com informações de g1 Paraíba