O antropólogo e político Darcy Ribeiro proferiu, diante do caixão do cineasta Glauber Rocha, um discurso carregado de emoção que qualificou o diretor como “o mais indignado de nós”. A fala ocorreu no enterro realizado no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, em 23 de agosto de 1981, um domingo, um dia após a morte de Glauber, registrada em 22 de agosto de 1981.

No discurso, Darcy descreveu Glauber como alguém que carregava uma sensibilidade extrema diante das mazelas do país, a ponto de chorar convulsivamente, segundo a transcrição do pronunciamento. Para Darcy, essas lágrimas eram a expressão da dor coletiva: a fome das crianças, a brutalidade, a tortura, a mediocridade e a injustiça social que marcaram o Brasil. Ele afirmou que os filmes de Glauber traduziam esse lamento — um grito e um berro — e deixou como legado a indignação do cineasta.

Glauber Rocha tinha 42 anos quando faleceu. É autor de obras consideradas centrais para o cinema brasileiro, entre elas Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Imagens da cerimônia e do discurso de Darcy estão disponíveis em registros no YouTube, conforme buscou o autor da matéria original.

O texto lembra também que, no dia seguinte à morte de Glauber, o Jornal do Brasil trouxe artigos dos críticos Ely Azeredo e José Carlos Avellar. Um dos textos ressaltou o talento construtor do cineasta, destacando a projeção internacional alcançada com seus filmes; o outro reforçou a imagem de Glauber como figura controversa, associada ao chamado “mito do demolidor”.

O autor do texto reafirma preocupação de que, ao longo do tempo, a imagem do demolidor possa ter obscurecido o reconhecimento do gênio criador de Glauber Rocha. Como contraponto, é citada a admiração do cineasta norte-americano Martin Scorsese, que revisita e divulga os filmes de Glauber entre atores e cineastas.

A matéria também aponta aspectos estéticos e temáticos da obra: a fusão de referências como John Ford, Akira Kurosawa e Villa-Lobos em Deus e o Diabo na Terra do Sol; as questões políticas ainda presentes em Terra em Transe; e o caráter delirante e estético de A Idade da Terra, considerada síntese do desespero e da ousadia do autor.

No sábado, 22 de agosto de 2026, completaram-se 45 anos da morte de Glauber Rocha; a matéria original encerra com uma transcrição de texto anterior do próprio autor sobre o cineasta.

Com informações de Jornaldaparaiba