A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, na segunda-feira, 20, o uso do medicamento Mounjaro (tirzepatida) no tratamento da apneia obstrutiva do sono (AOS) moderada e grave em pacientes com obesidade.

É a primeira vez que a agência autoriza uma opção farmacológica para a doença, condição crônica que, segundo estimativa publicada em 2019 na revista The Lancet Respiratory Medicine, afeta cerca de 50 milhões de brasileiros.

Como a apneia afeta o organismo

De acordo com Edilson Zancanella, coordenador do Conselho de Administração da Academia Brasileira do Sono (ABS), a AOS ocorre quando o fluxo de ar é interrompido durante o sono devido ao estreitamento da faringe provocado pela posição da língua e de sua estrutura de suporte. Essa pausa reduz drasticamente a oxigenação sanguínea, aciona mecanismos de alerta no corpo e fragmenta o sono, comprometendo funções como memória, concentração e liberação hormonal. As oscilações também podem elevar batimentos cardíacos e pressão arterial, aumentando o risco de infarto e acidente vascular cerebral.

Quem é mais afetado

A pneumologista Erika Treptow, do Instituto do Sono, aponta que homens acima dos 40 anos compõem o grupo mais acometido. Obesidade e sobrepeso são fatores decisivos, em razão do acúmulo de gordura na musculatura cervical, na região do pescoço e na cavidade abdominal, dificultando a ventilação durante o sono.

Tratamentos convencionais

Até agora, a intervenção mais comum se baseava em métodos mecânicos, como dispositivos de pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP), fonoterapia ou cirurgias.

Evidências que embasaram a decisão

A autorização da Anvisa tomou por base o estudo clínico de fase 3 SURMOUNT-OSA, que avaliou a tirzepatida em 469 participantes de países como Brasil, Estados Unidos, Austrália, China, Alemanha e México. O ensaio, multicêntrico e duplo-cego, testou o fármaco em pacientes que usavam ou não CPAP.

No início, os voluntários apresentavam cerca de 50 interrupções respiratórias por hora. Após um ano, quem recebeu Mounjaro e utilizava CPAP registrou redução média de 29,3 eventos, contra 5,5 no grupo placebo. Entre os que usaram apenas Mounjaro, a queda foi de 25,3 eventos, enquanto o placebo registrou 5,3.

A remissão ou classificação leve da AOS foi observada em 42% dos pacientes tratados apenas com o medicamento e em 50% dos que combinaram o fármaco ao CPAP, frente a 16% e 14% nas respectivas populações placebo.

Além de aliviar a apneia, o tratamento promoveu perda de peso: redução média de 20,4 kg (18% do peso corporal) com Mounjaro isolado e de 22,7 kg (20%) quando associado ao CPAP.

Próximos passos

A tirzepatida já possuía registro no País para diabetes tipo 2 e controle de peso. Com a nova indicação, a medicação passa a integrar o arsenal terapêutico contra a apneia obstrutiva do sono em pacientes obesos.

Com informações de Paraíba Online