Três pequenas cidades da Paraíba concentram atividades econômicas organizadas em arranjos produtivos locais (APL) que geram emprego e renda em torno de produtos específicos: confecção em São Domingos do Cariri, mandioca em Puxinanã e algodão colorido em Itatuba. Esses APLs combinam especialização territorial, apoio institucional e inserção em mercados regionais e nacionais.

São Domingos do Cariri: costura com alcance nacional

São Domingos do Cariri, município de pouco mais de 2 mil habitantes, produz mais de 40 mil peças de roupa por semana. A atividade é tradição local e ganhou festa própria em 1980. Entre os negócios da cidade está o ateliê de Dona Inácia, que, junto à família, confecciona cerca de 1.500 vestidos por semana. “A gente batalhou e estamos vencendo. As minhas irmãs, minha filhas, nunca dependeram de marido pra sustentar os filhos. Eu tenho um orgulho disso aí imenso”, afirma a costureira.

Outro exemplo é João Tavares Dantas, que começou a costurar aos 11 anos, hoje coordena 40 profissionais e vende para todo o país. O crescimento da produção foi impulsionado pelo comércio pela internet, que levou as peças para estados como Rio Grande do Sul, Maranhão, Goiás, além das capitais Brasília e Rio de Janeiro.

Puxinanã: mandioca e renda regional

A produção de mandioca na região de Puxinanã rendeu R$ 210 milhões em um ano, conforme dados locais. A cidade promoveu a 12ª Festa da Mandioca com apoio de instituições como Sebrae, Senai, Banco do Nordeste e Governo da Paraíba, que auxiliam produtores no acesso a crédito e na comercialização com o setor público. Seu Paulo Barbosa, de 80 anos, ainda planta mandioca em três hectares: “Foi com esta cultura tão importante que eu criei meus dez filhos”, diz o agricultor. A comunidade também destaca o beiju como produto regional de destaque.

Itatuba: algodão verde e contratos antecipados

Em Itatuba, o algodão colorido verde — variedade desenvolvida pela Embrapa e cultivada sem agrotóxicos — beneficia mais de 70 famílias. O modelo adotado prevê que o agricultor assine contrato antes de plantar, garantindo preço de venda antecipado. Paulo Emílio, gerente regional da Empaer (Empresa Paraibana de Pesquisa, Extensão Rural e Regularização Fundiária), informa que a expectativa é produzir cerca de 30 toneladas de algodão colorido agroecológico nos cinco municípios atendidos pela iniciativa.

Padronização e alcance dos APLs

Os arranjos produtivos locais costumam reunir especialização territorial, rede de pequenos produtores e suporte de instituições (Sebrae, Embrapa, Empaer, bancos), o que facilita o acesso ao mercado. Em nível nacional existem 677 arranjos espalhados por 2.175 municípios — quase metade dos municípios brasileiros — e esse tipo de mercado local gera mais de 3 milhões de empregos diretos, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Desafios apontados

Apesar dos resultados, órgãos de apoio destacam limitações estruturais. Muitos polos funcionam como APLs “de fato” sem formalização legal (CNPJ), o que impede acesso a linhas coletivas do BNDES e a programas estaduais. Há também subutilização de compras públicas locais por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Especialistas sugerem replicar o modelo de contratualização do algodão — contrato antecipado, assistência técnica e comprador garantido — em outros arranjos.

O avanço do comércio eletrônico ampliou o alcance de São Domingos sem a construção de fábricas, mas deixou evidentes gargalos em logística e necessidade de capital de giro para que as pequenas costureiras atendam a demanda crescente.

Os casos locais mostram que reconhecer, formalizar e financiar atividades já existentes pode ampliar o desenvolvimento em microrregiões, com apoio coordenado de esferas federal, estadual e municipal e instituições parceiras.

Com informações de Jornaldaparaiba