O deputado federal Cabo Gilberto Silva (PL-PB), que voltou a ser o candidato mais votado na Paraíba, relacionou o avanço eleitoral da direita a condições históricas que precederam a chegada de Adolf Hitler ao poder na Alemanha. As declarações foram proferidas em entrevista à Rádio Arapuan, em João Pessoa, ontem (05).
Ao comentar os resultados das urnas, o parlamentar afirmou que a reação do eleitorado seria provocada por uma suposta “humilhação” promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Durante a entrevista, Cabo Gilberto defendeu ainda a abertura de processo de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes.
“A gente quer fazer justiça, e a justiça é cassar o ministro Xandão, para ele pagar pelos seus crimes. Mas sem ultrapassar a questão da humilhação. A gente tem que respeitar”, declarou o deputado.
Para fundamentar sua comparação, Cabo Gilberto retomou acontecimentos do período pós-Primeira Guerra Mundial e mencionou o Tratado de Versalhes, afirmando que as sanções aplicadas à Alemanha teriam gerado ressentimento na população, o que teria contribuído para o fortalecimento de lideranças extremistas.
Segundo ele, medidas do Supremo estariam promovendo no Brasil um processo análogo, ao restringir liberdades e perseguir opositores políticos, e por isso justificariam a reação registrada nas urnas.
Contestações e explicações
Nas redes sociais, historiadores e estudiosos contestaram a leitura feita pelo parlamentar, e muitos classificaram a comparação como uma forma perigosa de relativizar o nazismo. Entre os críticos está o professor Emilio Figueiredo (@emiliohistoriador), mestre em Ensino de História, que pediu cautela ao empregar analogias envolvendo o regime nazista.
Figueiredo argumentou que a ascensão de Hitler não pode ser reduzida à ideia de “humilhação” provocada pelo Tratado de Versalhes. Segundo o historiador, o surgimento do nazismo envolveu uma combinação de fatores, entre os quais crise econômica, instabilidade política, crescimento do ultranacionalismo, antissemitismo, violência política, propaganda e o enfraquecimento das instituições democráticas.
O pesquisador ressaltou que, em 1928, com o Tratado de Versalhes ainda em vigor, o Partido Nazista obteve apenas 2,6% dos votos. Para ele, a grande expansão dos nazistas ocorreu após a crise de 1929, quando desemprego e miséria intensificaram a crise institucional. Figueiredo também lembrou que Hitler foi nomeado chanceler em janeiro de 1933 por Hindenburg, num contexto político complexo em que o partido já havia perdido votos em relação a pleitos anteriores, e que o líder nazista utilizou mecanismos legais, coerção e violência para minar a democracia.
O historiador concluiu que explicações simplistas — como atribuir o nazismo exclusivamente à “humilhação” de Versalhes — não correspondem à complexidade dos processos históricos e que analogias sobre Hitler e a Segunda Guerra exigem conhecimento e contextualização rigorosos.
Durante a entrevista, questionado pelo jornalista Luís Torres sobre se estava comparando Jair Bolsonaro a Hitler, Cabo Gilberto negou a equivalência direta e afirmou que usou a referência como exemplo histórico para sustentar sua tese sobre reações eleitorais motivadas por ressentimento social.
O episódio provocou debates nas redes, com especialistas pedindo precisão histórica ao empregar referências tão sensíveis e carregadas de implicações políticas e morais.
Com informações de Jornaldaparaiba




