Adotei tatuagens já na idade avançada: hoje tenho dez espalhadas pelos meus braços. Pessoas próximas costumam dizer que elas formam um pequeno catálogo de referências que me são caras. Uma dessas marcas no meu braço esquerdo reproduz a capa do álbum Geraes, de Milton Nascimento — o trenzinho, as montanhas de Minas e o sol, um traço singelo e bonito.
O disco Geraes completa 50 anos em 2026. Um ano antes, em 2025, foi a vez de Minas alcançar meio século. Os dois trabalhos se respondem e muitas vezes são lembrados como partes complementares de uma mesma obra.
Milton Nascimento nasceu no Rio de Janeiro, perdeu a mãe muito cedo e foi criado por um casal em Minas Gerais, o que faz com que sua origem artística seja associada ao estado. Entre 1970 e 1978, sete álbuns lançados por Milton sintetizam o núcleo de sua produção — do disco com o Som Imaginário até o duplo Clube da Esquina 2.
Nesse período estão incluídos o primeiro Clube da Esquina (1972), em parceria com Lô Borges; o Milagre dos Peixes (1973), trabalho de estúdio que sofreu forte censura durante o regime militar; Minas (1975) e Geraes (1976). Todos esses álbuns foram lançados pela gravadora Odeon.
Milton reuniu músicos e amigos em torno do que se passou a chamar de Clube da Esquina, e foi nesse ambiente que começou a colher maior reconhecimento. Seu som, difícil de enquadrar em rótulos, tornou-se identificado com o próprio nome do artista.
O talento de Milton foi prontamente notado tanto por colegas brasileiros quanto por músicos estadunidenses do meio jazzístico. A adesão do público brasileiro foi mais lenta e se intensificou a partir do álbum Minas, já numa fase em que o artista acumulava anos de carreira e discos.
O disco Geraes, agora cinquentenário, reflete esse momento de consolidação. Reúne participações de Chico Buarque, Mercedes Sosa e Clementina de Jesus, incorpora os colaboradores do Clube da Esquina e explicita diálogos com a música latino-americana. O repertório mostra Milton tanto como autor quanto como intérprete: inclui sua Menino, gravações de O Que Será (escrita com Chico Buarque), Promessas do Sol e a interpretação de Volver a los 17 (Violeta Parra).
Há ainda contribuições de Nelson Ângelo (Fazenda), Toninho Horta (Viver de Amor) e Novelli (Minas Geraes), além dos parceiros letristas Fernando Brant e Ronaldo Bastos. O tema folclórico Calix Bento, adaptado por Tavinho Moura, recebeu o acompanhamento da sanfona de Dominguinhos; e a introdução criada por Francis Hime para O Que Será ganhou um vocalise marcante de Milton.
Com o passar das décadas, tanto Minas quanto Geraes se firmaram como referências duradouras da música popular brasileira.
Com informações de Jornaldaparaiba



