Daniel Valentim e Gisele Castro são os pais de Iara, o primeiro bebê gerado por um homem trans a nascer na rede pública estadual de saúde da Paraíba. A criança veio ao mundo no Hospital da Mulher, em João Pessoa, em junho de 2026. O casal mora em Esperança, no Agreste paraibano; Daniel é estudante de agronomia e Gisele é professora universitária e veterinária.
Para viabilizar a gestação, Daniel precisou suspender a terapia hormonal e seguir uma série de procedimentos médicos iniciados anos antes do parto. O casal já havia tentado ter filhos em 2022, mas a interrupção dos hormônios naquele momento provocou alterações físicas que intensificaram a disforia de gênero em ambos, levando-os a retomar o tratamento e adiar os planos de família.
Três anos após a primeira tentativa, a gravidez foi confirmada de forma inesperada: Daniel fez um teste de urina e, surpreso com o resultado positivo, presenteou Gisele com uma fralda embrulhada junto ao exame. O pré-natal começou em Campina Grande, mas o casal optou por transferir o acompanhamento para o Hospital da Mulher após identificar na unidade um ambiente de maior acolhimento e equipes com experiência no atendimento a pessoas trans — a maternidade realiza, por exemplo, cirurgias de mastectomia em homens trans.
Com apoio do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (Ambulatório TT) Fernanda Benvenutty, em João Pessoa, Daniel obteve vaga e passou o pré-natal para o Hospital da Mulher no oitavo mês de gestação. A escolha também foi influenciada por relatos positivos de atendimento e pela sensação de segurança oferecida pelos profissionais da unidade, inaugurada pouco mais de um ano antes do nascimento de Iara.
A gestação foi classificada como de risco após um diagnóstico de trombose. Além das preocupações médicas, as mudanças corporais decorrentes da gravidez e da suspensão da hormonioterapia aumentaram a disforia de gênero de Daniel, que relatou dificuldades emocionais e situações de estranhamento em espaços públicos. Gisele também interrompeu a terapia hormonal, depois de mais de 15 anos de tratamento; segundo ela, as alterações provocadas pelos hormônios podem ser monitoradas e, em muitos casos, revertidas com acompanhamento médico.
Ao compartilhar a experiência, o casal enfatizou que a construção de uma família está ligada ao afeto, respeito e cuidado, independentemente da configuração genética ou da identidade de gênero dos pais. O parto — descrito pelos pais como cercado de acolhimento — marcou a chegada de Iara, encerrando um processo longo que envolveu decisões médicas, adaptações pessoais e busca por atendimento inclusivo.
Com informações de G1



