Ligação entre facção e Prefeitura de Cabedelo motiva afastamento

Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka, apontado como líder do Comando Vermelho na Paraíba, aparece em investigações da Polícia Federal que culminaram no afastamento do prefeito de Cabedelo, Edvaldo Neto (Avante). A decisão judicial que autorizou a operação, assinada pelo desembargador Ricardo Vital de Almeida, do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), cita a participação do criminoso no esquema investigado.

Na terça-feira, 14 de abril de 2026, Edvaldo Neto foi afastado do cargo. A PF mira, além do prefeito, outras 12 pessoas, entre familiares e membros da administração municipal. Entre os alvos está Josenilda Batista dos Santos, então secretária de Administração, apontada como operadora interna que recebia indicações da facção e atuava para fraudar licitações e contratar via terceirizadas. O ex-prefeito Vitor Hugo também foi alvo e é apontado nos autos como articulador inicial do arranjo que teria firmado pacto com a organização criminosa.

Como o esquema teria funcionado

Segundo o material juntado pela investigação, a Prefeitura de Cabedelo teria firmado contratos de serviços terceirizados, como limpeza, por meio de licitações supostamente direcionadas para favorecer empresas ligadas ao esquema, incluindo a Lemon. Após a formalização dos contratos, as terceirizadas serviriam para empregar pessoas indicadas pela facção “Tropa do Amigão”, braço do Comando Vermelho na Paraíba, identificadas internamente pelos documentos com a sigla “FTK”.

Os recursos destinados aos postos terceirizados, conforme a investigação, retornavam aos chefes da organização e a agentes políticos na forma de propina, pagamentos em dinheiro, “folha paralela” e outros mecanismos de ocultação, configurando indícios de lavagem de dinheiro. Documentos e depoimentos, entre eles o de uma integrante identificada como Ariadna Thalia, conhecida como “Arroto de Urubu”, apontam que Fatoka emitia ordens que iam do controle armado de territórios ao direcionamento de contratações dentro da prefeitura.

Histórico criminal e situação atual de Fatoka

O primeiro registro de Fatoka na prisão data de 2012, quando foi detido por chefiar uma facção paraibana, promover rebeliões em presídios e ser apontado como mandante de homicídios em João Pessoa. Permaneceu preso até 2018, ano em que participou da fuga em massa da Penitenciária de Segurança Máxima PB1, ocasião em que 92 detentos escaparam após explosão do portão. Foi recapturado em Alagoas após denúncia anônima que indicou que indivíduos se passavam por veranistas em uma casa de praia.

Posteriormente, teve relaxamento de pena e foi colocado em cumprimento de medidas cautelares com tornozeleira eletrônica, mas, segundo a Polícia Civil, rompeu o equipamento e fugiu para o Rio de Janeiro. Está na lista do Ministério da Justiça que identifica criminosos considerados perigosos e foragidos por estado. Também responde a investigação por suposta coação violenta de eleitores em Cabedelo nas eleições de 2024.

Ligação familiar e defesas

O documento de autorização da operação indica que a sogra do prefeito afastado, que ocupava cargo na administração municipal, foi identificada como advogada do criminoso. A sogra, Cynthia Cordeiro, foi procurada e não respondeu, mas em nota divulgada nas redes sociais afirmou atuar como advogada da Lemon, garantir retidão em sua atuação e confiar na Justiça.

A defesa de Edvaldo Neto negou qualquer vínculo com facção e classificou a imputação como inverídica, ressaltando que a medida é provisória. Em vídeo publicado nas redes sociais na sexta-feira, 17, o prefeito afastado reafirmou não ter cometido atos ilícitos e disse ter cooperado com órgãos de segurança para combater organizações criminosas nas instituições públicas. O ex-prefeito Vitor Hugo negou conhecer Ariadna Thalia e disse ser vítima de perseguição política, enquanto Rougger Guerra, secretário de João Pessoa, declarou desconhecimento dos fatos e que entregou o cargo.

A Lemon afirmou, em nota, que pauta suas atividades na ética e que se colocou à disposição para colaborar com as investigações. As defesas dos demais alvos não foram localizadas pela reportagem.

Com informações de G1