Um delegado da Polícia Civil da Paraíba, Braz Morroni, dois agentes da corporação e cinco integrantes de uma facção criminosa foram presos na manhã desta terça-feira (2) durante a operação Perfídus, que desarticulou um grupo suspeito de se apropriar de drogas apreendidas e comercializá-las ilegalmente.

A investigação começou em fevereiro de 2025, a partir da denúncia de um traficante que afirmou que entorpecentes haviam sido furtados por agentes da Polícia Civil. Conforme a Justiça, o esquema teria movimentado cerca de R$ 10 milhões em vendas ao longo de quatro anos. Dos nove mandados de prisão expedidos, oito foram cumpridos na ação.

Quem são os suspeitos

De acordo com o documento judicial ao qual a reportagem teve acesso, Braz Morroni, delegado da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio (DCCPAT), teria participação ativa no esquema. A decisão aponta que ele tolerava as ações dos subordinados e recebia parte dos lucros das vendas de drogas desviadas. O juiz que autorizou as prisões afirma haver indícios de que Braz recebeu transferências financeiras de membros da organização e que, em dezembro de 2025, teria ido pessoalmente à delegacia para recolher valores. Pela decisão foi determinada prisão temporária, afastamento do cargo, bloqueio de bens e suspensão do porte de arma. Em audiência de custódia, a prisão temporária foi mantida e ele foi encaminhado ao Presídio Especial do Valentina, em João Pessoa.

O principal apontado como operador do grupo é o investigador Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como “Bomba”. Segundo o documento, Everton ligava policiais e traficantes, guardava drogas desviadas, negociava carregamentos de cocaína e skunk, cuidava da contabilidade clandestina e orientava práticas de lavagem de dinheiro, além de participar em esquemas de importação irregular e venda de anabolizantes. Movimentações financeiras incompatíveis com sua renda também são citadas. Após a prisão, a custódia temporária foi mantida e ele também foi encaminhado ao Presídio do Valentina.

Outro investigado da corporação é o investigador Eduardo Jorge Ferreira do Egito, apelidado “Mão Branca”. A Justiça afirma que ele teria participado da subtração de drogas, monitorado carregamentos de facções, manipulado rastreadores em veículos e armazenado entorpecentes em sua residência. O documento aponta ainda movimentações financeiras milionárias e mecanismos de ocultação patrimonial. Sua prisão temporária foi mantida em audiência e ele foi levado ao Presídio Especial do Valentina.

Integrantes da facção presos na operação são: João Wicttor Alves de Lima (“Vitor”), apontado como responsável por armazenar, refinar e comercializar drogas e por realizar transferências financeiras; Brendo Roberth Fernandes Sobral (“Breno”), subordinado de Vitor, que atuava na guarda, refino e distribuição; e Paulo Ricardo Barbosa de Souza (“Galinha”), que teria funcionado como informante dos policiais e distribuidor, fornecendo dados sobre depósitos de facções rivais em troca de cargas desviadas e participando da movimentação financeira por meio de empresas próprias.

Também são citados José Alexandrino de Lira Júnior (“Júnior Lira”), líder da distribuição de grandes carregamentos na região do Sertão da Paraíba e no Rio Grande do Norte, com relações diretas com Everton; e Vanessa Dantas Fernandes, esposa de Júnior Lira, apontada como tesoureira do esquema, que teria usado contas para receber, fracionar e pulverizar recursos do tráfico, realizando depósitos fracionados seguidos de saques sistemáticos para ocultar os ativos.

A decisão menciona ainda Dankennedy Vieira Brito da Silva (“Babau”), integrante da facção Nova Okaida, que teria sido uma das vítimas do desvio e divulgado imagens nas redes sociais que motivaram as apurações. Dankennedy foi o único citado que não foi preso no cumprimento do mandado; os demais relacionados foram detidos.

Três pessoas foram mencionadas na decisão apenas como mantenedoras de relações financeiras suspeitas com o grupo e foram alvo de busca e apreensão: Diego Ernesto Pereira Barros (ex-policial militar), Fabiano de Matos Farias (“Galego”) e Jobson Rodrigo da Silva. Fabiano já está preso por outros crimes na Penitenciária de Segurança Máxima Criminalista Geraldo Beltrão, em João Pessoa.

Durante o cumprimento do mandado de busca, o ex-policial militar Diego Ernesto foi preso em flagrante por obstrução de Justiça e posse ilegal de arma de fogo; passou por audiência de custódia e foi liberado ainda na terça-feira (2). A defesa dele classificou a prisão em flagrante como “excessiva” e “desproporcional”, afirmando que “não havia elementos concretos para a manutenção da prisão ou para a conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva”.

A defesa do delegado Braz Morroni afirmou, em nota, que “é preciso rassaltar o direito constitucional à presunção de inocência” e que vai “analisar os autos visando a adoção das medidas pertinentes para restaurar a liberdade do delegado”, acrescentando que “no momento oportuno, irá provar sua inocência”. O Jornal da Paraíba não conseguiu localizar as defesas dos demais citados.

Com informações de Jornaldaparaiba