A sanfona não é só instrumento musical na Paraíba: é base de uma cadeia produtiva que envolve fabricantes, luthiers, afinadores, professores e vendedores, além de fortalecer identidade cultural e gerar renda.
Aos 98 anos, o compositor e poeta pernambucano Onildo Almeida recorda a parceria com Luiz Queiroga na composição de Hora do Adeus, gravada por Luiz Gonzaga em 1967. Segundo Onildo, Gonzagão chegou a pedir uma canção que simbolizasse o encerramento da carreira: “Ele [Luiz Gonzaga] sentia que o tempo dele na música tinha chegado ao fim”. O artista faleceu em 1989, mas a música e a presença da sanfona se entranharam na cultura nordestina.
Do palco às oficinas
Para Onildo, a sanfona tornou-se quase uma extensão do músico, principalmente no caso de Gonzagão. A partir dessa centralidade, surgiu uma cadeia de produção que inclui fábricas, oficinas, artesãos e profissionais que dependem financeiramente do instrumento. “Foi Gonzagão quem levou essa musicalidade para o sul do país. Quem transformou a sanfona nordestina em disco, mercado e identidade popular”, afirma Onildo.
Fábricas e inovação
Em Campina Grande, o músico Amazan transformou a experiência de consertos em uma fábrica de sanfonas. Depois de aprender o ofício na prática e buscar conhecimento na Itália, ele começou a produzir instrumentos em 2003 e implantou melhorias técnicas, como afinações diferentes e um sistema de troca rápida da bateria eletrificada, com gaveta externa que reduz o tempo de manutenção durante apresentações.
O projeto recebeu apoio de consultorias do Sebrae Paraíba para planejamento financeiro, processos produtivos e formalização. Marckezan Azevedo, diretor de operações da fábrica, ressalta o impacto social: “Em quase 25 anos de história, impactamos diretamente na renda familiar de dezenas de famílias.” Entre os profissionais está Sarayva Azevedo, de 54 anos, afinadora desde 2012, que descreve o trabalho como artesanal e essencial para o sustento.
Economia criativa e perspectivas
Dados de um mapeamento da Indústria Criativa da Firjan indicam que a economia criativa brasileira movimentou mais de R$ 393 bilhões em 2023, o equivalente a 3,59% do Produto Interno Bruto, segundo estudo divulgado em 2025 com base em 2023. Mais de um milhão de empregos formais foram gerados por essa cadeia. No Nordeste, música e cultura popular figuram entre os segmentos mais fortes.
Regina Amorim, gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae Paraíba, destaca o potencial turístico ligado à cultura local e cita reconhecimentos da UNESCO: “Inclusive, João Pessoa é a cidade criativa da UNESCO no segmento de artesanato e arte popular, assim como Campina Grande é cidade criativa no segmento de artes midiáticas. Isso é muito bom para a Paraíba, porque é uma forma de interação com outros países.” Ela ressalta, porém, que muitos profissionais ainda encaram a arte como atividade secundária.
Enquanto houver procura por ensino, manutenção e produção, a sanfona tende a seguir como instrumento que une tradição, identidade e sustento na Paraíba, adaptando-se a novas demandas sem perder o vínculo com as práticas artesanais e musicais da região.
Com informações de G1



