Um grupo de economistas afirma que os juros elevados, e não os gastos públicos primários, são o fator central que pressiona a dívida pública brasileira. Eles destacam que os elevados pagamentos de juros drenam recursos que poderiam ser destinados a bens e serviços produtivos e elevam os lucros do sistema financeiro.
Na avaliação das especialistas ouvidas, a narrativa corrente de que a alta dos juros é uma resposta aos gastos do Estado está invertida: seriam os juros a provocar o aumento do endividamento. Nos 12 meses até março, o país despendeu R$ 1,08 trilhão com juros, equivalente a 8,35% do Produto Interno Bruto (PIB).
Quem e por que
A professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Juliane Furno, com doutorado pela Unicamp, afirma que, ao analisar os componentes da dívida, o déficit primário — despesas com servidores e serviços públicos — tem impacto menor na evolução da dívida do que os juros. Para ela, atribuir à despesa primária a causa principal do aumento da dívida distorce a realidade.
Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), considera que o atual arranjo macroeconômico — que combina taxas de juros altas e exigência de cortes nos gastos primários — resulta de escolhas políticas que privilegiaram a atuação do setor financeiro em detrimento do crescimento e do bem-estar da população.
Como os números se comportaram
A Dívida Bruta do Governo Central, que engloba União, INSS, estados e municípios, subiu 1,4 ponto percentual do PIB em 2026, alcançando 80,1% do PIB (R$ 10,4 trilhões). O Banco Central atribui esse aumento principalmente à incorporação de juros nominais, que contribuíram com +2,4 pontos percentuais, enquanto as emissões líquidas de dívida somaram +0,4 ponto percentual.
O debate ganhou novo impulso com o aumento do endividamento das famílias e medidas como o programa Novo Desenrola. Economistas que defendem cortes de gastos como forma de conter a inflação sustentam que o Banco Central estaria reagindo à trajetória do gasto público. As atas do Copom, inclusive, reiteram a necessidade de disciplina fiscal, citando o potencial de aumento da taxa de juros caso haja afrouxamento fiscal ou incertezas sobre a estabilização da dívida.
Tese alternativa e propostas
Entre os especialistas que contestam a visão dominante, há consenso em proteger gastos que beneficiam os mais pobres e em reduzir juros, considerados benéficos apenas ao mercado financeiro. O próprio BC estima que cada ponto percentual de alta na Selic eleva a dívida em mais de R$ 50 bilhões.
Maria Lourdes Mollo, professora de economia na Universidade de Brasília (UnB) e doutora pela Universidade de Paris, afirma que grande parte do gasto do governo está dedicada ao pagamento de juros. Ela reconhece que juros altos ajudam a controlar a inflação, mas alerta para seus custos sociais e para o efeito negativo sobre a capacidade produtiva, que dificulta uma solução pela via do aumento de oferta.
As economistas consultadas também rejeitam comparações simplistas entre o orçamento público e o orçamento familiar ou de empresa, lembrando que o Estado opera com outras prerrogativas, como emissão de moeda e definição de taxas de juros.
A discussão segue sem consenso entre os economistas: de um lado, a ênfase em disciplina fiscal e corte de gastos; do outro, propostas para reduzir juros e estimular a oferta como caminho para controlar a inflação e aliviar a pressão sobre a dívida pública.
Com informações de Agência Brasil



