José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, afirmou que a guerra no Irã e o bloqueio do Estreito de Ormuz revelam a vulnerabilidade energética do Brasil, agravada pela interrupção de projetos de ampliação do refino durante a Operação Lava Jato e pela atuação de multinacionais do setor.

Gabrielli lançou nesta semana o livro Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro, editado pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep). Em entrevista à Agência Brasil, ele avaliou os impactos do conflito no Irã sobre o mercado mundial de petróleo e gás, a atuação dos Estados Unidos e as consequências para a capacidade de abastecimento do Brasil, em especial de diesel.

Segundo o ex-presidente da estatal, o atual conflito constitui um terceiro grande choque do petróleo, comparável aos de 1973 e 1979, e terá efeitos duradouros no comércio de hidrocarbonetos e, principalmente, no mercado de gás, dado que ataques atingem importantes produtores.

Gabrielli comentou que a política externa dos EUA tem buscado interferir no mercado internacional do petróleo, citando intervenções na Venezuela e no Irã. Ele destacou que a exportação iraniana deve ser alterada com a guerra e que o controle do Estreito de Ormuz pelo Irã já provocou mudanças, inclusive exigindo pagamentos em yuans em algumas transações, o que questiona a predominância do dólar nas negociações.

O ex-presidente também apontou que Canadá, Guiana e Brasil devem ser responsáveis por parte da nova oferta que chegará ao mercado em 2027, com previsão de 1,2 milhão de barris por dia adicionais, o que pode alterar o abastecimento da China e da Índia. Ele observou que o petróleo brasileiro se adapta bem às grandes refinarias chinesas, enquanto o canadense atende refinarias menores.

Gabrielli afirmou que o Brasil enfrenta problema de segurança energética por não dispor de capacidade de refino suficiente para suprir consumo interno de diesel, gasolina e gás de cozinha, ressaltando que a dependência de diesel varia entre 20% e 30% do mercado nacional. Ele lembrou que, a partir da Operação Lava Jato, a possibilidade de construção de novas refinarias foi inibida; a Petrobras havia planejado cinco unidades e construiu apenas uma. Entre 1980 e 2014 não houve novas refinarias no país, com a RNEST, em Pernambuco, inaugurada em 2014.

O ex-presidente destacou ainda a expansão do número de importadores de derivados desde o governo Temer — cerca de 300 autorizações — e disse que, enquanto refinarias reduziram a carga para operar em torno de 50% da capacidade nas gestões Temer e Bolsonaro, a partir de 2023, no governo Lula, a operação voltou a cerca de 93% da capacidade, ainda insuficiente para atender a demanda. Ele classificou importadores como agentes especulativos que compram quando o preço internacional é mais baixo que o doméstico.

Sobre a transição energética, Gabrielli afirmou que o mundo não pode abrir mão imediatamente de combustíveis fósseis e que choques de preço tendem a contrair demanda no curto prazo, mas podem acelerar a transição no médio e longo prazos. Em relação ao hidrogênio verde, disse que sua viabilização depende da criação de um mercado consumidor além das atuais aplicações em refinarias e fertilizantes. Para descarbonizar setores como siderurgia, cimento, transporte pesado e aviação, é necessário produzir hidrogênio próximo ao consumo e competir com biocombustíveis, pois a molécula é de difícil transporte. Ele mencionou que, por meio do hidrogênio, é possível produzir metanol e, a partir dele, combustíveis sintéticos; analistas estimam que o hidrogênio verde possa dominar o mercado de combustíveis por volta de 2035, desde que decisões políticas comecem a ser tomadas agora.

Com informações de Agência Brasil