O ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi detido nesta sexta-feira (6) após o Senado aprovar seu impeachment. O Ministério Público determinou igualmente a prisão de Carlos Carvallo, que ocupava a presidência do Banco Central do Paraguai (BCP).
O processo de destituição foi aberto às pressas na véspera, no contexto da grave crise financeira desencadeada pela falência do Ueno Bank, que resultou no congelamento de depósitos e afetou milhões de correntistas. A votação política registrou 44 votos favoráveis ao impeachment e uma ausência; Peña havia anunciado sua renúncia antes da decisão.
Com a condenação, Peña perdeu a Presidência e o direito à senadoria vitalícia previsto no artigo 189 da Constituição paraguaia, benefício vedado a mandatários destituídos por impeachment. Sem a imunidade associada ao cargo, o ex-presidente passa a responder perante a Justiça comum e já enfrenta representações criminais por suspeitas de enriquecimento ilícito, tráfico de influência e gestão em benefício próprio. A Procuradoria-Geral do Estado também abriu nova investigação penal.
Crise bancária e impacto
A liquidação do Ueno Bank foi determinada pelo Banco Central depois que o índice de solvência da instituição caiu para 5,56%, menos da metade do mínimo legal exigido. O banco digital, do qual Peña foi acionista até março de 2025 via Grupo Vázquez, administrava cerca de US$ 850 milhões (aproximadamente R$ 4,5 bilhões) em recursos públicos; desse total, aproximadamente US$ 380 milhões pertenciam ao Instituto de Previsão Social (IPS).
O congelamento das contas atingiu quase 3 milhões de clientes — cerca de metade da população estimada em 6,4 milhões — interrompendo pagamentos a aposentados e afetando também milhares de brasileiros residentes no Paraguai. A crise levou à renúncia de Carlos Carvallo à presidência do Banco Central e à prisão de oito executivos do Ueno Bank, entre eles Miguel Vázquez, dono do grupo controlador e ex-sócio de Peña.
Enquanto o Senado avançava com o processo de impeachment, milhares de manifestantes e estudantes protestaram em Assunção, ocupando a Plaza de Armas, a sede do Banco Central e o Ministério do Trabalho; os atos incluíram queima de pneus e pedidos pela liberação dos depósitos e pela responsabilização dos envolvidos.
Depósitos do IPS e acusações
Durante o julgamento político, a comissão de acusação da Câmara exibiu documentos mostrando que os depósitos do IPS no Ueno Bank cresceram 30 vezes em 31 meses. Segundo dados apresentados, os recursos passaram de 70 bilhões de guaranis (cerca de R$ 61,7 milhões) em setembro de 2023 para 250,17 bilhões de guaranis (R$ 221 milhões) em dezembro daquele ano; em dezembro de 2024 chegaram a 1,77 trilhão de guaranis (aprox. R$ 1,5 bilhão) e alcançaram 2,15 trilhões de guaranis (quase R$ 2 bilhões) em abril deste ano.
A deputada Rocío Vallejo, integrante da acusação, afirmou que Peña subordinou o Banco Central a interesses empresariais. A acusação também afirmou que, mesmo após anunciar a renúncia, Peña continuou a assinar decretos e a exercer funções presidenciais. No Senado, foi apresentado ainda o crescimento patrimonial de Peña: de 1,3 bilhão de guaranis (aprox. R$ 840 mil) em 2017 para mais de 23 bilhões de guaranis (cerca de R$ 19 milhões) em 2023, um aumento de 23 vezes.
Defesa e procedimentos
A defesa de Santiago Peña, conduzida pelos advogados Adolfo Ferreiro e Ricardo Preda, tentou adiar a sessão por 72 horas para analisar as acusações, pedido que foi rejeitado pelo Senado. A Casa aprovou por unanimidade, com 41 votos favoráveis, a admissão das provas apresentadas pela acusação. Peña não compareceu à sessão, e a senadora Yolanda Paredes levantou a hipótese de que ele teria deixado o país clandestinamente.
Na sustentação, Ricardo Preda afirmou que quebras de instituições financeiras ocorrem em vários países, citando o caso do Credit Suisse, e questionou a credibilidade dos documentos da acusação. Adolfo Ferreiro informou que pretende recorrer à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para impugnar os procedimentos adotados no julgamento político.
A notícia segue com as informações disponíveis sobre as prisões e o andamento das investigações.
Com informações de Polemicaparaiba



