TRANSMISSÃO: pelo Youtube da paróquia de São José | Band

Família de Gil questiona postura do padre em processos distintos

A família de Preta Gil e o músico Gilberto Gil apontaram contradição na defesa do padre Danilo César, que presidia a paróquia de Areial e foi denunciado por intolerância religiosa após falas proferidas em uma missa transmitida ao vivo no ano passado. Segundo os advogados da família, Layanne Piau e Fredie Didier, o clérigo adotou versão distinta na esfera cível em comparação com o acordo que celebrou na esfera criminal com o Ministério Público Federal (MPF).

O padre firmou um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com o MPF, homologado pela Justiça Federal, que incluiu a assinatura de um termo em que ele confessou a conduta ilícita e se comprometeu a cumprir obrigações determinadas pelo acordo. Ainda assim, na ação de reparação por danos morais, movida na esfera cível, Danilo afirmou que apenas expressava sua fé ao relacionar a morte da cantora à prática de religiões de matriz afro-indígena, o que, segundo os advogados da família Gil, contraria o conteúdo do acordo criminal.

Os representantes legais entendem que a divergência entre as versões pode configurar desrespeito a decisão judicial que homologou o ANPP, já que ambos os processos nasceram do mesmo episódio. Fredie Didier não informou se vai recorrer do acordo criminal.

Em resposta ao g1, o advogado do padre, Rodrigo Rabello, afirmou que os dois procedimentos são independentes e que o ANPP não exigiu que Danilo admitisse a prática de crime ou dolo. Segundo a defesa, no âmbito penal o padre apenas reconheceu publicamente ter proferido as falas registradas em vídeo, e os objetos centrais das ações civil e criminal seriam distintos, o que, na visão do defensor, impede a relação entre ambos os procedimentos.

Como previsto no acordo, foi realizado um ato inter-religioso em 6 de fevereiro, no qual o padre compareceu, mas não se manifestou. A cerimônia contou com a participação remota de Gilberto Gil e da madrasta de Preta Gil.

O ANPP estabeleceu várias medidas que o padre deveria cumprir, entre elas: leitura e produção de resenhas manuscritas das obras A Justiça e a Mulher Negra (Lívia Santana) e Cultos Afro-Paraibanos (Valdir Lima), preferencialmente capítulo a capítulo; elaboração de resenha manuscrita do documentário Obatalá, o Pai da Criação; realização de 60 horas em cursos sobre intolerância religiosa, com fornecimento de certificados; entrega das três resenhas manuscritas e no mínimo 20 horas certificadas até o fim de junho; pagamento de R$ 4.863,00 via Pix em até cinco dias à Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes (AACADE); e participação em ato inter-religioso com representantes de diferentes crenças e com familiares de Gilberto Gil, com articulação prévia de sua participação com a Procuradora da República.

O caso se originou em 27 de julho do ano passado, quando, durante homilia transmitida pelo Youtube da paróquia de São José, o padre associou a morte da cantora Preta Gil, ocorrida nos Estados Unidos vítima de câncer colorretal, a práticas de religiões de matriz afro-indígena. O vídeo da missa foi retirado do ar após ampla repercussão nas redes sociais.

Na celebração, além de relacionar a fé da cantora ao sofrimento e à morte, o padre fez declarações consideradas desrespeitosas sobre cultos afro-indígenas e registrou críticas aos fiéis que recorrem a essas práticas. As falas motivaram denúncia da Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria, da região de Areial; o presidente da entidade, Rafael Generiano, registrou boletim de ocorrência por intolerância religiosa.

A família de Preta Gil mantém a ação por danos morais na esfera cível, enquanto o acordo no âmbito criminal segue homologado pela Justiça Federal.

Com informações de G1