Flávio de Lima Monteiro, o “Fatoka”, apontado como chefe do Comando Vermelho na Paraíba, aparece em investigação da Polícia Federal como peça central de um esquema que operava na Prefeitura de Cabedelo. A operação, autorizada por decisão do desembargador Ricardo Vital de Almeida, resultou no afastamento do prefeito Edvaldo Neto (Avante) e mira a contratação de pessoas ligadas à facção por meio de empresas terceirizadas.

O mandado da Justiça descreve Fatoka como responsável por indicar membros da organização para ocuparem cargos na administração municipal, por meio de contratos firmados com empresas que teriam vencido licitações supostamente fraudadas. Em alguns documentos internos, essas indicações teriam sido identificadas pela sigla “FTK”.

Alvos e funcionamento do esquema

Além de Edvaldo Neto, a ação da PF atingiu outras 12 pessoas, entre familiares e auxiliares do prefeito. Entre os citados está a então secretária de Administração, Josenilda Batista dos Santos, apontada como o braço operacional dentro da prefeitura, que teria recebido indicações da facção e atuado para fraudar processos licitatórios e efetivar contratações via terceirizadas. O ex-prefeito Vitor Hugo também foi citado como articulador inicial do esquema, responsável por estabelecer o pacto e estruturar o modelo de atuação.

Segundo o documento judicial, o modelo consistia na realização de licitações direcionadas para favorecer empresas parceiras — citada a Lemon entre elas — com desclassificações deliberadas de concorrentes e pareceres que davam aparência de legalidade ao processo. Após a contratação, os postos terceirizados serviriam para empregar pessoas indicadas pela facção “Tropa do Amigão”, braço local do Comando Vermelho. Recursos públicos pagos às empresas retornariam em parte ao núcleo político e à organização por meio de propinas, folhas paralelas, saques em espécie e outros mecanismos, configurando indícios de lavagem de dinheiro.

Ligação de Fatoka ao esquema e antecedentes criminais

O documento relata depoimentos que atribuem a Fatoka o controle de ordens que vão desde o comando armado em territórios até a influência sobre decisões administrativas de Cabedelo. Uma integrante da organização, identificada como “Arroto de Urubu”, afirmou que ele emitia determinações com esse alcance. A decisão também aponta que pessoas próximas a Fatoka teriam ocupado posições estratégicas na gestão municipal, funcionando como ponte entre a facção e o poder público.

Fatoka tem histórico de prisões: o primeiro registro ocorreu em 2012, por comandar uma facção, promover rebeliões e ser apontado como mandante de homicídios em João Pessoa. Permaneceu detido até 2018, quando fugiu entre 92 presos do PB1 em uma ação que usou explosivos para derrubar o portão principal. Foi recapturado em Alagoas, liberado posteriormente para cumprir medidas cautelares com tornozeleira eletrônica, rompeu o equipamento e fugiu ao Rio de Janeiro. Ele também é investigado por aliciamento de eleitores em Cabedelo durante as eleições de 2024 e integra lista do Ministério da Justiça com criminosos procurados por estados.

Posicionamentos dos investigados

Em nota, a defesa de Edvaldo Neto negou qualquer vínculo do prefeito com facção criminosa e destacou o caráter provisório da medida cautelar. O ex-prefeito Vitor Hugo disse não conhecer Ariadna, contestou envolvimento e afirmou ser vítima de perseguição política. Rougger Guerra, secretário de João Pessoa, afirmou não ter relação com os fatos e confirmou entrega do cargo. A sogra de Edvaldo, que ocupava pasta na prefeitura, não respondeu às tentativas de contato; ela foi mencionada no documento como advogada de Fatoka.

A empresa Lemon afirmou, por nota, que pauta suas ações na ética e se colocou à disposição para colaborar com as investigações. A mulher que se apresentou como advogada da Lemon também declarou que atua com lisura e que confia na apuração dos fatos. A Polícia Federal conduz as investigações com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco-PB).

As investigações seguem em curso e as medidas judiciais relacionadas ao caso continuam a tramitar.

Com informações de Jornaldaparaiba