No último dia 6 de fevereiro, o cantor e compositor Gilberto Gil participou de forma virtual de um ato inter-religioso promovido pelo Ministério Público Federal (MPF) na Paraíba. O encontro, realizado na sede do MPF em João Pessoa, reuniu representantes de diversas tradições religiosas e contou com a presença do padre Danilo César, acusado de intolerância religiosa por comentários feitos contra Preta Gil durante uma missa em julho do ano passado.

Durante a cerimônia de reparação, Gilberto Gil qualificou as falas do padre como “agressões” contra sua família e amigos. “Nosso agradecimento pelo ato de reparação a essa agressão, a essa injustiça que foi perpetrada contra nós, toda nossa família, nossos amigos, parentes”, afirmou o artista. Ele elogiou o reconhecimento público do erro e afirmou que a iniciativa pode servir de “compreensão civilizadora” para evitar episódios semelhantes.

Gil destacou ainda que a reconciliação promovida pela religião tem caráter “regenerativo” e direcionou palavras positivas ao padre Danilo César. “Ao padre, à sua paróquia e a todos que fazem a vida religiosa, nosso agradecimento pela aproximação proposta. Espero que seja absolutamente sincera e profunda, como é da nossa parte.”

Padre Danilo César esteve presente, mas não discursou e devolveu o microfone oferecido durante o evento. Em seguida, optou por não conceder entrevistas. O bispo da Diocese de Campina Grande, Dom Dulcênio Fontes de Matos, divulgou uma carta aberta reforçando o compromisso da instituição com o diálogo inter-religioso, o respeito mútuo e a convivência pacífica entre diferentes tradições.

Participaram também do encontro líderes de igrejas católica e protestantes, representantes do candomblé, da umbanda e de outras religiões. Flora Gil, esposa de Gilberto Gil e madrasta de Preta Gil, marcou presença online e afirmou: “Estamos aqui para ouvir o perdão do padre, o reconhecimento da injustiça”.

Acordo de não persecução penal

Em decorrência da denúncia de intolerância religiosa, o padre Danilo César firmou um acordo de não persecução penal com o MPF, homologado pela juíza federal Cristiane Mendonça Lage. Dentre as condições estipuladas, o religioso deve:

  • Cursar 60 horas sobre intolerância religiosa, com comprovação;
  • Elaborar resenhas manuscritas de obras e documentário relacionados ao tema;
  • Pagar R$ 4.863,00 a uma associação de apoio a comunidades afrodescendentes;
  • Participar de ato inter-religioso com representantes de diferentes crenças.

O padre será responsabilizado criminalmente caso descumpra qualquer um dos termos. Entre as obras a serem resenhadas estão “A Justiça e a Mulher Negra”, de Lívia Santana, e “Cultos Afro-Paraibanos”, de Valdir Lima.

O caso teve origem em 27 de julho, quando, em missa transmitida pela internet, o padre relacionou a morte da cantora Preta Gil, vítima de câncer colorretal nos Estados Unidos, à sua fé em religiões de matriz afro-indígena. Na ocasião, afirmou que “os orixás não ressuscitaram Preta Gil” e se referiu a práticas religiosas de matriz africana como “coisas ocultas” e associou seguidores ao demônio.

Após a repercussão, a Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria registrou boletim de ocorrência por intolerância religiosa, gerando a investigação do MPF.

Com informações de G1