O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou em São Paulo que a classe dominante do país encara o Estado como se fosse dela, e não um bem comum. A declaração foi feita durante o lançamento do livro Capitalismo Superindustrial, no Sesc 14 Bis, em conversa mediada pela historiadora Lilia Schwarcz e com a participação do jornalista Celso Rocha de Barros.
Segundo Haddad, a entrega do poder estatal aos grandes proprietários rurais teria sido uma forma de indenização pela abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888. Ele recordou que, no dia seguinte, republicanos iniciaram movimento que, em 15 de novembro de 1889, proclamou a República, substituindo a monarquia e consolidando o controle da nova elite política.
“O movimento republicano expulsa a antiga classe dirigente e instala, em seu lugar, a mesma elite dominante, que passa a administrar o Estado como se fosse sua propriedade. Este arranjo se mantém até hoje”, avaliou o ministro.
Haddad também criticou o que chamou de “acordão” sob a tutela das Forças Armadas, ressaltando que qualquer questionamento ao pacto político vigente provoca reação imediata. “Não se pode tocar nisso em nenhuma instância. Por isso, a democracia brasileira é frágil: sua essência é contestar o status quo, mas quando estica a corda, corre-se o risco de ruptura institucional”, disse.
Capitalismo superindustrial
Lançada neste sábado (07/02/2026), a obra de Haddad analisa o modelo global de capitalismo superindustrial, marcado por desigualdades crescentes e competição intensa. O livro reúne pesquisas sobre a acumulação primitiva de capital na periferia, o papel do conhecimento como insumo produtivo e a formação de novas configurações de classe social.
Na avaliação do ministro, a desigualdade tende a se agravar se o Estado deixar de intervir. “Quando o Estado modera os efeitos do desenvolvimento capitalista, a desigualdade fica sob controle e as tensões sociais diminuem. Mas, abandonada à própria sorte, a dinâmica gera um abismo insustentável, transformando diferenças em contradições profundas.”
Processos no Oriente
Haddad dedicou parte da obra a examinar experiências de acumulação primitiva de capital na Ásia, distintas da escravidão americana e da servidão europeia. Ele destacou que as revoluções orientais foram antissistêmicas e serviram a projetos industrializantes, ao contrário das experiências ocidentais, movidas por interesses externos ou internos que não visavam à emancipação total.
“Embora internamente brutais e coercitivas, esses processos atraíram povos em busca de liberdade nacional, não apenas humana”, afirmou. O ministro reconheceu avanços nas forças produtivas e na mercantilização da ciência e do trabalho, mas ponderou que os ideais originais dos líderes revolucionários nem sempre foram alcançados.
Ao concluir, Haddad reforçou a necessidade de compreender as contradições históricas do capitalismo e os desafios que se impõem ao futuro da democracia no Brasil.
Com informações de Agência Brasil



