João Pessoa comemora 441 anos em meio a um crescimento populacional e econômico que levanta dúvidas sobre a capacidade da cidade de manter a qualidade de vida. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, a capital paraibana teve o maior aumento populacional entre as 20 maiores cidades brasileiras, passando de 723.515 habitantes em 2010 para 833.932 em 2022, alta de 15%.
Crescimento urbano e valorização imobiliária
O avanço demográfico acompanhou forte valorização do mercado imobiliário. Em 2026, o preço dos imóveis na cidade subiu 15%, segundo o Índice FipeZAP, marca que representa a segunda maior alta entre capitais no país e o maior índice histórico de valorização para João Pessoa. O preço médio do metro quadrado saltou de R$ 4,5 mil em 2019 para cerca de R$ 8 mil em 2026.
A arquiteta e urbanista Joyce Chaves avalia que o ritmo do adensamento e da valorização imobiliária tem superado a capacidade de investimento em infraestrutura e a gestão urbana. Segundo a especialista, parte da ocupação recente ocorreu sobre corredores de ventilação e áreas de recarga hídrica sem controle técnico adequado, o que contribuiu para ilhas de calor e maior vulnerabilidade a alagamentos.
Para evitar que o crescimento comprometa serviços e ambiente urbano, Chaves ressalta a necessidade de aplicar instrumentos da legislação urbanística, entre eles:
- Estudos de impacto de vizinhança antes da aprovação de grandes empreendimentos
- Mecanismos para que parte da valorização imobiliária seja revertida em infraestrutura
- Habitação de interesse social e regularização fundiária de comunidades consolidadas
Mobilidade e o conceito de cidade de 15 minutos
A frota de veículos da capital aumentou 49% na última década, levantamento da CBN Paraíba com dados do Detran-PB divulgado em maio de 2026 mostra, percentual mais de três vezes superior ao crescimento populacional no mesmo período. O especialista em mobilidade André Agra aponta que esse aumento pressiona a infraestrutura viária e reforça a necessidade de repensar o modelo de desenvolvimento urbano.
Agra defende investimentos no modelo conhecido como cidade de 15 minutos, idealizado por Carlos Moreno, que busca aproximar moradia, trabalho, comércio, serviços de saúde, educação e lazer para que sejam acessíveis em até 15 minutos a pé, de bicicleta ou por transporte público, reduzindo deslocamentos diários.
Saneamento, meio ambiente e áreas costeiras
O avanço populacional também elevou a demanda por saneamento. Dados do Instituto Trata Brasil, divulgados em março de 2026, apontam que a cobertura de esgoto na capital caiu para 72,36% entre 2020 e 2025, e a cidade perdeu 14 posições no ranking nacional de saneamento.
A engenheira ambiental Kátia Lemos enfatiza que a ampliação da coleta e do tratamento de esgoto é essencial para evitar contaminação de corpos hídricos e o aumento de doenças de veiculação hídrica. Ela alerta ainda para impactos do crescimento sem planejamento, como impermeabilização do solo, redução da vegetação, ilhas de calor, erosão e assoreamento de rios, além da pressão sobre sistemas de drenagem.
Kátia destaca a importância de preservar áreas verdes, que regulam o microclima, favorecem a infiltração da água da chuva e diminuem o risco de enchentes. Como cidade litorânea, João Pessoa precisa também conciliar expansão urbana com a proteção de manguezais, rios e praias, ecossistemas que sustentam pesca artesanal e turismo e servem de linha de defesa da costa.
O desafio colocado por especialistas é equilibrar o crescimento urbano com investimentos em infraestrutura, saneamento, mobilidade e preservação ambiental para que a qualidade de vida da população não seja comprometida.
Com informações de Jornaldaparaiba


