João Pessoa (PB) — Jordana Machado relembra o momento em que, aos 17 anos, recebeu pelo celular imagens e prints relacionados à morte de uma família paraibana na Espanha, crime conhecido como Chacina de Pioz, ocorrido em agosto de 2016. Segundo ela, a reação inicial foi de forte choque e mal-estar, a ponto de ficar dias sem conseguir retomar a rotina escolar.
As vítimas foram identificadas como Marcos Campos Nogueira, a esposa Janaína Santos Américo e os dois filhos do casal, de 1 e 4 anos. O autor confesso das mortes é François Patrick Nogueira Gouveia, sobrinho de Marcos, condenado pela Justiça espanhola a três penas de prisão perpétua revisável e a mais 25 anos por um dos homicídios. Os corpos foram localizados em 18 de setembro de 2016, em uma residência em Pioz, cidade próxima a Guadalajara, e, conforme as investigações, estavam acondicionados em sacos plásticos.
Segundo Jordana, as imagens que recebeu incluíam fotos dos cadáveres e conversas trocadas entre Patrick e o então amigo Marvin Henriques Correia durante o período em que o crime ocorria, no intervalo entre a tarde de 17 de agosto e a manhã do dia seguinte, no horário espanhol. Nessas mensagens, conforme apurado pela polícia, Patrick narra detalhes do crime e relata que partes dos corpos foram colocadas em sacos; Marvin teria perguntado sobre vestígios que pudessem ligá-lo ao episódio e orientado sobre a saída do local.
Jordana conta que, inicialmente, pensou apenas em se proteger de possíveis retaliações e passou dias em estado de apreensão. A decisão de levar as provas às autoridades ocorreu no fim daquela semana: ela entregou um pendrive com o material por meio de um contato que tinha ligação com a Polícia Federal. Na sequência, Patrick embarcou para a Espanha na noite de 18 de outubro de 2016 e, no dia seguinte, se entregou às autoridades espanholas.
Marvin foi detido em João Pessoa em 28 de outubro de 2016 e ficou recolhido no presídio PB1 por segurança. Em 30 de novembro de 2016, ele saiu da prisão e passou a responder ao processo em liberdade provisória, com medidas cautelares e tornozeleira eletrônica. Em 2019, voltou a ser preso preventivamente sob a suspeita de tentar romper o equipamento de monitoramento, acusação negada pela defesa, que afirmou desgaste do aparelho. Em 2018, exame solicitado pelo Ministério Público concluiu pela ausência de doença mental, laudo contestado pela defesa.
No curso processual, Marvin foi absolvido sumariamente em 2021, decisão que o Ministério Público recorreu. Em 2023, o Tribunal de Justiça da Paraíba reabriu o processo e revogou a absolvição, citando indícios de que ele teria incentivado Patrick. Em março de 2026, o Superior Tribunal de Justiça rejeitou recurso da defesa que pretendia levar a discussão ao Supremo Tribunal Federal, deixando o caso em tramitação na Justiça estadual da Paraíba. Atualmente, Marvin responde em liberdade e é acusado de coparticipação na chacina.
Jordana relata que, após a denúncia, passou a ser alvo de ameaças e a viver com medo de represálias, o que a levou a procurar terapia para superar a ansiedade e a sensação de vulnerabilidade. Ela participou, em 2023, de um documentário sobre o caso, com o objetivo de preservar o registro de seu relato e evitar que o episódio fosse esquecido. Apesar de ainda receber mensagens de pessoas da Espanha, diz que hoje não dedica mais a mesma energia ao assunto.
Na Espanha, Patrick Nogueira foi julgado e condenado à pena máxima prevista no país, com revisão possível após 25 anos; a próxima reavaliação da pena está prevista para 2041. As cinzas das vítimas chegaram a João Pessoa em 10 de janeiro de 2017 e foram enterradas na Paraíba.
Com informações de G1



