Sociedades médicas brasileiras têm reiterado que fatores espirituais e psicossociais influenciam diretamente a saúde, sobretudo a cardiovascular. O alerta é do cirurgião cardíaco e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), André Telis, que defende a integração entre ciência e espiritualidade sem substituir o tratamento convencional.

Fatores emocionais e vínculos sociais no centro das atenções

Estudos mostram que estresse crônico, solidão, sofrimento prolongado, falta de sentido de vida e ausência de laços sociais alteram pressão arterial, inflamam o organismo, prejudicam o sono, modificam hábitos de vida e dificultam a adesão a terapias. Esses elementos, segundo Telis, formam um elo relevante entre espiritualidade – entendida como valores, propósito e esperança – e a medicina baseada em evidências.

Experiência pessoal reforça a necessidade de equilíbrio

Católico praticante, o médico relata ter se afastado da igreja durante um período de adoecimento físico. “Quanto pior eu ficava, menos frequentava as missas, e a culpa se intensificava”, lembra. Ao procurar atendimento especializado, descobriu que o corpo precisaria de cuidados objetivos. Após a recuperação, o desejo de retomar as atividades religiosas surgiu sem sentimento de cobrança. Para ele, a vivência mostra que nem toda dor é espiritual e que a fé, quando reduzida a peso ou culpa, deixa de auxiliar na cura.

Posicionamentos oficiais da cardiologia

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) publicou editorial nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia reconhecendo que aspectos culturais e espirituais interferem no risco cardiovascular, na adesão às prescrições e nos desfechos clínicos. O documento recomenda sensibilidade cultural como complemento – nunca substituto – ao tratamento médico.

Outro posicionamento da SBC, disponível sob o título “Position Statement on Hypertension and Spirituality 2021”, aborda a relação entre espiritualidade, estresse e hipertensão arterial, reforçando que práticas que promovem significado e pertencimento podem auxiliar no controle da pressão.

Mensagem para 2026: cuidado integral

Ao projetar o próximo ano, André Telis sugere atenção equilibrada ao corpo, mente e espírito. Para ele, 2026 deve inspirar menos culpa e mais responsabilidade: ciência para tratar o organismo, escuta para proteger a saúde mental e espiritualidade como fonte de sentido, não de cobrança. “A fé deve ser apoio, jamais fardo”, resume.

Telis é doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e atua em assistência, ensino e divulgação científica, reafirmando que a integração entre medicina moderna e valores espirituais é caminho para resultados de saúde mais consistentes.

Com informações de Jornaldaparaiba