Achada em 1974, ela chamou atenção por hábitos e origem atribuída a povo considerado extinto

Em 19 de julho de 1974, uma mulher foi localizada na Serra das Flechas, em Pedra Lavrada, região do Seridó na Paraíba, depois de ser vista furtando pequenos animais. Identificada pela comunidade como “Aparecida”, sua descoberta passou a ser um registro relevante sobre a presença indígena no estado, lembrado no Dia dos Povos Indígenas celebrado neste domingo (19).

Pesquisadores que estudaram o caso registraram que Aparecida não falava português e mantinha modos de vida e costumes que identificaram como indígenas. O historiador Ian Cordeiro, que entrevistou Maria Elizabeth — uma das pessoas que conviveram com ela — afirma que há um mistério sobre como uma pessoa com esse perfil foi encontrada muitos anos após a chamada Guerra dos Bárbaros, no final do século XVI, quando o povo Tarairiú passou a ser considerado extinto.

O professor e pesquisador Humberto Bismark Dantas, do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), relaciona o caso ao fenômeno dos chamados “caboclos bravos”: grupos indígenas que teriam permanecido em formação reduzida e em trânsito pela caatinga mesmo após a colonização. Segundo ele, essas populações mantinham contatos esporádicos com povoados, o que explicaria episódios de furtos em roçados e outras interações com moradores locais.

Após a captura inicial, Aparecida foi levada à casa do então prefeito Manoel Rodrigues e entregue a uma empregada da residência, Maria do Céu. Em 1975, ela fugiu e viveu cerca de quatro meses na área conhecida como Maxinaré ou Mufumbo, a aproximadamente 7 km da cidade, abrigando-se em locas: uma no alto da serra, usada para observação, e outra em região mais baixa, à beira do rio. Alimentava‑se com recursos retirados de roçados de milho e água de poços naturais.

Recapturada por um agricultor identificado como Gerson, foi então levada à casa de Maria Elizabeth, na comunidade rural do Retiro, onde permaneceu até o fim da vida. Relatos indicam que, nas capturas, moradores empregaram cães, cavalos, vaqueiros e laços para detê‑la, por fornecerem a imagem de alguém fugitiva ou perigosa.

Na ocasião da apreensão, Aparecida aparentava ter cerca de 60 anos, era um pouco mais alta que a estatura mediana e tinha cabelos pretos e ondulados, presos por um pano na cabeça. Não falava nem compreendia o português, vestia roupas confeccionadas com fibra de caroá e apresentava perfurações no nariz, nas narinas, na altura dos olhos, no queixo e nos calcanhares. Há registros de que andava em pequeno grupo, mas nenhum outro integrante foi localizado.

A mulher morreu em 22 de setembro de 1981, no hospital de Parelhas, no Rio Grande do Norte, em razão de uma enfermidade que afetou seu sistema digestório. Pesquisadores que investigaram o caso levantam a hipótese de que ela possa ser uma remanescente do povo Tarairiú, cuja presença na região é lembrada em mapas históricos e narrativas orais.

Com informações de G1