Mais de 30 deputados da oposição na Argentina apresentaram, nesta segunda-feira (27), uma moção de repúdio ao presidente Javier Milei em razão de declarações proferidas por ele durante evento político em São Paulo no último sábado (25). Os autores da proposta consideram as falas “extremamente graves” e tratam-nas como interferência nos assuntos internos do Brasil.

No discurso realizado em um ato que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, Milei chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, de “lixo careca” e se referiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “presidiário”.

A iniciativa é liderada pelo deputado Jorge Taiana, que ocupou os cargos de ministro das Relações Exteriores nos governos de Néstor e Cristina Kirchner e de ministro da Defesa na gestão de Alberto Fernández. Taiana afirmou que as declarações envergonham a Argentina e colocam em risco a tradição diplomática do país.

No texto da moção, os parlamentares sustentam que os comentários de Milei violam princípios básicos do direito internacional, como a não intervenção e a autodeterminação dos povos, considerados pilares históricos da política externa argentina.

Os deputados também criticam a presença de funcionários do Ministério das Relações Exteriores na comitiva presidencial. Segundo o documento, a viagem teve caráter pessoal e político-partidário, sem uma agenda oficial que justificasse o emprego de estruturas do Estado e da diplomacia.

A proposta foi protocolada na Câmara dos Deputados e deverá passar por comissões antes de eventual votação no plenário. A tramitação, porém, pode enfrentar dificuldades: a Comissão de Relações Exteriores é presidida por Juliana Santillán, integrante da coalizão governista A Liberdade Avança, liderada por Milei.

A oposição detém 101 das 257 cadeiras da Câmara, mas os autores da moção esperam angariar apoio de parlamentares independentes. Para aprovar a moção será necessária maioria simples entre os deputados presentes à sessão.

O governo brasileiro também reagiu às declarações. O Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos, e chamou de volta para consultas o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli. Em nota, o Itamaraty afirmou que não há precedentes, em mais de 200 anos de relações bilaterais, para ofensas desse tipo por parte de um chefe de Estado argentino.

O episódio aumenta a tensão diplomática entre Brasil e Argentina e ocorre no contexto da aproximação do presidente argentino com lideranças de direita na América do Sul. Durante a estadia, Milei também esteve no Peru e na Colômbia, onde participou de compromissos com governantes alinhados ao seu campo ideológico.

Com informações de Polemicaparaiba