Na Paraíba, diversos sobrenomes aparecem repetidamente em cargos públicos ao longo de décadas, com membros de uma mesma família ocupando prefeituras, assembleias, o Congresso Nacional e outros postos de destaque. Essas trajetórias incluem sucessões diretas entre pais e filhos, além de alianças entre clãs que ampliaram influência em diferentes municípios e no estado.

O legado e suas origens

Historiadores apontam que a presença contínua de famílias na política local tem raízes em práticas e estruturas de poder formadas no início do século XX, quando chefes locais detinham grande influência sobre populações do interior. Segundo o historiador Vanderley de Brito, embora o voto de cabresto — prática de pressão sobre eleitores dependentes economicamente — tenha perdido a força institucional, a cultura política herdada ao longo do tempo ainda contribui para que determinados sobrenomes permaneçam reconhecidos.

Para o cientista político Ítalo Fittipaldi, a existência de dinastias políticas não é exclusiva da Paraíba e pode ser verificada em outras unidades da Federação e no exterior. Ele ressalta, entretanto, que o que importa é o retorno em políticas públicas para as regiões onde esses grupos concentram votos: o capital eleitoral herdado facilita o acesso ao eleitorado, mas não garante automaticamente a continuidade no poder.

Principais famílias citadas

Cunha Lima — A atuação do grupo em Campina Grande começou com Ronaldo Cunha Lima, prefeito em 1969 e novamente a partir de 1989, além de ter ocupado os cargos de governador, deputado federal e senador. Seu filho Cássio Cunha Lima foi prefeito entre 1997 e 2002 e, eleito governador em 2002, também teve mandatos como deputado federal e senador. O sobrenome voltou ao Executivo municipal com Romero Rodrigues (2013-2020) e com Bruno Cunha Lima, eleito prefeito em 2020 e reeleito em 2024. Pedro Cunha Lima foi deputado federal de 2015 a 2023. Em 2026, Diogo Cunha Lima concorre ao cargo de vice-governador na chapa liderada por Cícero Lucena.

Ribeiro — Enivaldo Ribeiro iniciou a trajetória do grupo, tendo sido prefeito de Campina Grande entre 1977 e 1983 e exercido mandatos na Assembleia e na Câmara dos Deputados. Sua esposa, Virgínia Velloso Borges, foi prefeita de Pilar. Entre os filhos, Aguinaldo Ribeiro atua na Câmara desde 2011 e chegou a ocupar o Ministério das Cidades; Daniella Ribeiro foi vereadora, deputada estadual e, em 2018, eleita senadora — a primeira mulher da Paraíba eleita para o Senado. A geração seguinte inclui Lucas Ribeiro, filho de Daniella, que foi vice-prefeito de Campina Grande, depois vice-governador e passou a comandar o governo do estado; atualmente ele disputa reeleição.

Vital do Rêgo — A família reúne vínculos com os Gondim por meio de Nilda Gondim, filha do ex-governador Pedro Gondim e casada com Antônio Vital do Rêgo. O avô Major Veneziano teve atuação política em Pernambuco; Antônio foi deputado estadual e federal. Os filhos seguiram na vida pública: Vital do Rêgo Filho (Vitalzinho) foi vereador, deputado federal e senador e hoje atua como ministro do Tribunal de Contas da União (TCU); Veneziano Vital do Rêgo foi vereador, prefeito de Campina Grande, deputado federal, senador e vice-presidente do Senado, e disputa reeleição ao Senado em 2026.

Motta / Wanderley — Em Patos, os sobrenomes Motta e Wanderley marcam gerações. Francisca Motta, neta de Edivaldo Motta, foi vice-prefeita, deputada estadual e prefeita interina; Nabor Wanderley da Nóbrega Filho, pai de Hugo Motta, foi prefeito e deputado estadual, e foi reeleito prefeito em 2024. Hugo Motta estreou na Câmara dos Deputados em 2010, aos 21 anos, e em fevereiro de 2025 foi eleito presidente da Casa. Em 2026, Nabor Wanderley concorre ao Senado e Olívia Motta disputa vaga de deputada estadual.

Gadelha — Com base no Sertão, especialmente em Sousa, a família teve lideranças como Marcondes Gadelha, deputado federal e senador entre 1983 e 1991, e José Gadelha, figura histórica do município. Leonardo Gadelha, filho de Marcondes, foi vice-prefeito de Sousa, deputado estadual e federal, presidiu o INSS entre 2016 e 2017 e integrou chapa presidencial em 2014. André Gadelha foi prefeito de Sousa e deputado estadual e é candidato ao Senado em 2026. Renato Gadelha, irmão de Marcondes, também ocupou cargos administrativos locais.

Lucena — A linhagem inclui Sólon de Lucena, bisavô de Cícero Lucena, que governou a Paraíba entre 1920 e 1924 e interinamente em 1916; o Parque Sólon de Lucena leva seu nome em João Pessoa. Humberto Lucena, tio de Cícero, foi deputado estadual, deputado federal e senador, presidindo o Senado em dois mandatos (1987-1989 e 1993-1995). Cícero Lucena foi vice-governador, governador, senador e prefeito de João Pessoa em diferentes mandatos. Lauremília Lucena foi a primeira mulher vice-governadora do estado. Da geração mais jovem, Mersinho Lucena foi vice-prefeito de Cabedelo e deputado federal; Janine Lucena atuou na administração de João Pessoa; Fabiano Lucena exerceu mandato de deputado estadual.

Bezerra — Originária de Bananeiras, a família teve Odon Bezerra Cavalcanti como prefeito, deputado estadual, deputado federal e governador em 1946. Clóvis Bezerra Cavalcanti, médico, foi prefeito, deputado estadual, presidente da Assembleia e vice-governador, tendo assumido o governo entre 1982 e 1983. Hervázio Bezerra exerce mandato de deputado estadual, e seu filho Léo Bezerra foi vereador e vice-prefeito de João Pessoa e atualmente comanda a prefeitura da capital. Odon Bezerra Cavalcanti Sobrinho, irmão de Hervázio, presidiu a OAB-PB e é vereador em João Pessoa.

Essas trajetórias mostram como nomes familiares ganharam espaço no cenário político paraibano por meio de sucessões, alianças e ocupação de diferentes cargos, mantendo presença nas esferas municipal, estadual e federal.

Com informações de Polemicaparaiba