Filipe Magalhães, sociólogo e assistente de diretoria da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa), foi o único representante do Nordeste brasileiro a participar da elaboração do relatório Global Environment Outlook 7 (GEO‑7) do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O documento, intitulado “Um futuro que escolhemos”, foi lançado oficialmente em dezembro de 2025 e reúne a avaliação científica mais ampla já produzida pelo órgão.
O GEO‑7 é fruto do trabalho multidisciplinar de 287 cientistas de 82 países e funciona como um diagnóstico sobre o estado atual, as tendências e as perspectivas ambientais globais. Magalhães atuou como revisor do relatório, contribuindo para a verificação da coerência e do rigor técnico das informações apresentadas.
Efetivo da Cagepa há 15 anos, Magalhães é formado em ciências sociais, possui mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente e descreve-se como cientista social e ambiental. Atualmente, ele trabalha na interface com a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), com foco em financiamento de projetos de sustentabilidade.
A participação no GEO‑7 ocorreu após um processo seletivo global iniciado no começo do ano anterior. Movido pelo hábito de consultar relatórios internacionais de organismos como ONU‑Habitat e ONU‑Water, Magalhães respondeu a uma chamada pública do Pnuma que buscava revisores com perfis multidisciplinares capazes de validar a base científica do estudo e acrescentar novas camadas analíticas ao texto.
Durante a revisão, ele examinou o documento na íntegra, mas concentrou contribuições diretas em seis capítulos, com ênfase em recursos hídricos. Em um dos trechos, interveio em um estudo sobre balanço hídrico, solicitando que fossem consideradas variáveis como perdas de água e padrões de consumo que não estavam adequadamente contemplados. Ele também inseriu a perspectiva das ciências sociais no debate ambiental, propondo reflexões sobre a chamada “ética do cuidado” e destacando o impacto da herança colonial na exploração predatória de recursos no Brasil.
Magalhães ressaltou ainda um ponto crítico do GEO‑7: a lacuna entre o conhecimento científico produzido e a implementação de políticas públicas. Segundo ele, embora as evidências estejam disponíveis, os decisores frequentemente não as consideram ao formular e executar políticas. O relatório também aponta a inviabilidade do modelo econômico linear em um planeta com limites finitos, alertando para o consumo excessivo que supera a capacidade regenerativa da biosfera e aproximando o mundo de “pontos de não retorno”.
Em outro momento da revisão, o sociólogo atuou para evitar interpretações distorcidas sobre crescimento populacional, advertindo que argumentos sobre “superpopulação” poderiam ser apropriados por grupos de extrema direita para justificar controles de natalidade em prejuízo de direitos humanos.
Por sua contribuição ao GEO‑7, Magalhães recebeu, no último dia 4, uma carta de agradecimento assinada por Maarten Kappelle, chefe de ciência do Pnuma. Apesar de o relatório indicar caminhos de transformação que poderiam aumentar trilhões de dólares ao Produto Interno Bruto global até 2070 caso haja mudança de trajetória, o revisor declarou gratidão pelo trabalho e preocupação diante do cenário projetado, que aponta para décadas difíceis e risco de colapso da biodiversidade no próximo século se não houver ruptura no modo de vida atual.
Com informações de Paraiba




