Nesta quarta-feira, 11 de março de 2026, completa um ano desde a primeira denúncia conhecida como “Caso ISEA”, que envolve suspeita de negligência médica na Maternidade Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (ISEA), em Campina Grande (PB). A investigação começou após a morte de um recém-nascido. Pouco depois da denúncia, a mãe do bebê, a assistente social Maria Danielle Cristina Morais, também veio a óbito. Mesmo após um ano, o inquérito policial ainda não foi finalizado.

A família de Danielle segue à procura de respostas e de responsabilização. O viúvo, Jorge Elô, afirma confiar nas orientações das advogadas que acompanham o caso, embora a demora nas apurações venha afetando sua saúde mental. Segundo ele, as autoridades estão reunindo amplo material probatório e depoimentos para tornar o inquérito mais robusto.

O que aconteceu no parto

De acordo com relatos da família, Danielle deu entrada no ISEA em 27 de fevereiro de 2025. No dia seguinte, exames teriam indicado possibilidade de parto vaginal e a equipe médica iniciou indução com medicamentos. Na madrugada de 1º de março, o médico de plantão — que também acompanhava o pré-natal — teria trocado a medicação por outra via intravenosa para intensificar as contrações. Conforme a família, enfermeiras perceberam que a cabeça do bebê já estava coroada e aumentaram a dosagem do remédio; o trabalho de parto parou de evoluir e Danielle teria desmaiado, ficando sem pulso, sendo levada para cirurgia de emergência. O pai relata que entrou na sala depois e viu a equipe retirando o bebê já sem vida e segurando o útero da mãe.

Óbito de Maria Danielle e certidão de óbito

Maria Danielle morreu em 25 de março de 2025, menos de um mês após a perda do bebê e da retirada do útero. Familiares disseram que ela acordou bem no dia, mas logo teve uma forte dor de cabeça, desmaiou e foi atendida pelo Samu; encaminhada ao Hospital Pedro I, não resistiu. A Secretaria de Saúde de Campina Grande informou na época que Danielle havia passado por nova cirurgia no Hospital Doutor Edgley e recebido alta, mas que depois foi internada no Hospital Pedro I com sinais de um possível Acidente Vascular Cerebral (AVC) hemorrágico.

O corpo de Danielle foi submetido a autópsia no Instituto de Polícia Científica da Paraíba (IPC). Relatos da família apontam que as primeiras análises não estabeleceram a causa da morte; exames posteriores teriam indicado AVC. Como os resultados saíram após o prazo legal para emissão da certidão de óbito, a família precisou recorrer à Justiça para obter o documento com a causa indicada. O viúvo aguarda a assinatura do juiz para a homologação e para poder registrar o nome dela no túmulo.

Andamento das investigações e medidas administrativas

O Ministério Público da Paraíba (MPPB) informou que abriu procedimento sobre a denúncia em 12 de março de 2025 e que, um ano depois, a apuração está em fase final. O órgão destacou que a investigação criminal é conduzida pela Polícia Civil e que o inquérito será enviado ao promotor apenas após a conclusão. O delegado Renato Leite comunicou que o inquérito ainda não foi finalizado e que um novo prazo de 30 dias começa a contar a partir de quinta-feira, 12 de março, para diligências complementares; depois disso, o caso pode ser remetido à Justiça ou ter nova prorrogação.

Em paralelo, a Secretaria de Saúde de Campina Grande abriu sindicância interna. O relatório final recomendado afastamento da equipe envolvida e foi encaminhado à Procuradoria-Geral do Município para avaliar eventual processo administrativo. Segundo o órgão, entre os profissionais afastados, o médico não retornou ao ISEA e a enfermeira teve o contrato encerrado no fim de 2025; técnicos de enfermagem voltaram às atividades.

Transformação da dor em ação

Nos dias entre a perda do bebê e o falecimento de Danielle, ela e o marido começaram a elaborar uma plataforma de orientação para gestantes e acompanhantes. Após a morte, Jorge deu sequência ao projeto e lançou a plataforma “Dani e Davi Elô – Guia para a gestante e o acompanhante de parto”, que reúne informações sobre fases do trabalho de parto, direitos e formas de identificação e denúncia de violência obstétrica.

Especialistas e advogadas orientam que casos de violência obstétrica podem ser denunciados por Disque 180, Disque 136, nas ouvidorias dos hospitais, nos conselhos de classe, ou diretamente à Polícia Civil, Defensoria Pública e Agência Nacional de Saúde. A advogada Nayane Ramalho recomenda reunir documentação, como prontuário médico, cartão da gestante, exames e registros de comunicação, além de depoimentos de testemunhas que acompanharam o atendimento. Segundo ela, violência obstétrica inclui ações que desrespeitem o corpo e a autonomia da mulher, como procedimentos realizados sem consentimento ou a negativa de medidas para alívio da dor.

O processo criminal seguirá as diligências determinadas pela Polícia Civil e o Ministério Público acompanhará a tramitação até a conclusão do inquérito.

Com informações de G1