A derrubada do governo de Nicolás Maduro, ocorrida no sábado (3), em Caracas, segue dividindo especialistas sobre a legitimidade da operação militar conduzida pelos Estados Unidos. Para o advogado venezuelano Alexander Moreno, porém, o episódio representa a interrupção de um período que definiu como “opressão sem fim”. Refugiado no Brasil desde 2018, ele conversou com a reportagem e descreveu a própria sensação como “alívio para milhões de conterrâneos”.

Moreno deixou a Venezuela após participar de manifestações contra o regime. Identificado como opositor e acusado de “traidor” pelas autoridades, refugiou-se inicialmente no Equador, onde viveu clandestinamente ao lado da mãe. No começo de 2018, um frade franciscano intermediou a transferência da família para Campina Grande, na Paraíba, onde permaneceram cerca de três anos sob apoio de grupos religiosos.

“Quando um povo reage em silêncio ou em lágrimas, não comemora a violência, mas reconhece que um ciclo terminou”, afirmou o advogado. Segundo ele, as críticas à intervenção estrangeira precisam considerar o ponto de vista de quem sofreu perseguições políticas. “O Direito Internacional não valida exaltações acríticas da força, mas também não há soberania legítima quando o Estado transforma-se em violador permanente dos direitos humanos”, completou.

Debate sobre legalidade e reconstrução

Instalado atualmente em Mogi das Cruzes (SP), Moreno reconhece dúvidas jurídicas quanto à captura de um chefe de Estado fora dos “mecanismos clássicos”. Entre elas, cita riscos de fragmentação institucional, represálias internas e eventuais vácuos de poder. Ainda assim, sustenta que exigir “pureza procedimental absoluta” de um país sem garantias democráticas é, em suas palavras, “negar qualquer saída viável”.

Organizações como Anistia Internacional e Nações Unidas atribuem ao governo Maduro prisões arbitrárias de opositores, repressão a protestos, mortes e censura à imprensa. Esses fatores impulsionaram o deslocamento de milhares de venezuelanos para o Brasil, incluindo centenas da etnia indígena Warao que chegaram nos últimos anos à Paraíba.

A discussão ganhou novo capítulo na segunda-feira (5), quando Maduro declarou-se inocente diante da Justiça norte-americana em Nova York, alegando ser “prisioneiro de guerra” da administração Trump. O processo judicial acontece paralelamente ao debate internacional sobre a forma como o regime foi deposto e sobre os próximos passos para a reconstrução política venezuelana.

Com informações de Jornaldaparaiba