Ronaldo Cunha Lima, eleito governador da Paraíba após disputa acirrada em 1990, assumiu um Executivo marcado por grave crise fiscal e optou por concentrar sua gestão na recuperação financeira do estado em detrimento de grandes obras. Sua trajetória pública começou em Campina Grande, onde se destacou como prefeito ao criar o Parque do Povo e consolidar as festas juninas de 30 dias conhecidas como “O Maior São João do Mundo”.
Campanha e eleição
O lançamento oficial de sua candidatura ocorreu em 12 de janeiro de 1990, na Associação Paraibana de Imprensa, com o slogan “Nem Braga, nem Burity, Ronaldo vem aí”. Pelo PMDB, Ronaldo disputou a eleição estadual de 1990 contra nomes como João Agripino Neto, Genival de França, Juraci Palhano Freire e o ex-governador Wilson Braga. No primeiro turno, em 3 de outubro, Braga obteve 33% dos votos e Ronaldo 31%.
No segundo turno, em 25 de novembro, Ronaldo direcionou a campanha para a capital e litoral e rompeu com a associação à gestão anterior, obtendo 55% dos votos válidos e conseguindo a vitória.
Prioridade: ajuste fiscal
Ao tomar posse, a equipe de transição relatou salários atrasados por até seis meses e uma folha de pagamento inflada por servidores fantasmas. Em seu discurso de posse, Ronaldo avisou que não buscaria obras grandiosas, mas sim ações que recuperassem emprego e renda e, sobretudo, a saúde fiscal do estado.
Para enfrentar o problema, o governo adotou medidas como o censo do servidor para identificar empregados fantasmas, revisão do orçamento estadual, autorização para cobrança de ICMS vencido, cortes em gastos não essenciais e reestruturação de secretarias e autarquias. Cássio Cunha Lima, filho do governador, definiu o quadro como uma “situação fiscal dificílima” e destacou a prioridade dada ao equilíbrio das contas.
Outra ação relevante foi a mobilização para a reabertura do Banco Estadual da Paraíba (Paraiban), liquidado no governo federal, resultado que contou com o apoio do senador Humberto Lucena e permitiu a liberação de 105 bilhões de cruzeiros no início de 1993, com o banco voltando a operar em 1994.
O governo também apoiou programas sociais, entre eles o chamado Programa Cidadania, destinado à emissão de documentos básicos como certidão de nascimento, identidade e CPF, para regularizar o acesso de cidadãos a direitos e serviços, conforme relato do então secretário Inaldo Leitão.
Relação com o partido e com o Legislativo
Historiadores apontam que Ronaldo manteve postura de maior centralidade partidária dentro do PMDB, ao contrário do antecessor Tarcísio Burity, que havia se distanciado da legenda. Segundo o pesquisador José Octávio de Arruda Mello, isso permitiu ao governador articular uma maioria na Assembleia Legislativa e apoio em grande parte dos municípios paraibanos.
Atentado contra Tarcísio Burity
A maior crise pública do governo ocorreu em 5 de novembro de 1993, quando Ronaldo foi detido após disparar três tiros contra o ex-governador Tarcísio Burity em um restaurante. Noticiado nacionalmente, o episódio levou à prisão temporária do governador, que foi liberado horas depois por decisões judiciais.
Ronaldo afirmou à imprensa, em entrevista emocionante, que agira para defender a honra do filho Cássio. Pediu afastamento do cargo por dez dias, medida que não foi acatada pela bancada do PMDB na Assembleia, que rejeitou por 26 votos a 2 tanto a licença quanto uma convocação extraordinária para processá-lo. O vice Cícero Lucena assumiu interinamente e Ronaldo reassumiu o cargo em 26 de novembro de 1993.
O processo penal seguiu tramitando e, anos mais tarde, para preservar direitos políticos, Ronaldo renunciou ao mandato de deputado federal enquanto o caso estava no Supremo Tribunal Federal. Ele morreu em 2012.
Com informações de Jornaldaparaiba


