Uma integrante de organização criminosa prestou depoimento que detalha como funcionava um esquema de contratações terceirizadas na Prefeitura de Cabedelo (PB) e que resultou no afastamento do prefeito Edvaldo Neto (Avante). Identificada pela investigação como chefe do núcleo de lavagem de dinheiro do Comando Vermelho na Paraíba, Ariadna Thalia Cordeiro Barbosa — conhecida como “Arroto de Urubu” — foi presa em dezembro do ano passado e, segundo o documento que autorizou a operação, informou à Justiça os mecanismos usados para direcionar contratos e empregar indicados da facção.
O afastamento de Edvaldo Neto ocorreu após ação da Polícia Federal realizada na terça-feira (14). A operação, autorizada pelo desembargador Ricardo Vital de Almeida, do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), apura desvios de R$ 270 milhões envolvendo fraudes em licitações, empresas terceirizadas e a inserção de pessoas ligadas à organização criminosa na estrutura municipal.
Além do prefeito afastado, a ação mirou outras 12 pessoas, entre familiares e integrantes da gestão. Na lista de investigados está Josenilda Batista dos Santos, secretária de Administração, apontada como o braço operacional dentro da Prefeitura — responsável por receber indicações da facção, fraudar processos licitatórios e efetivar contratações via empresas terceirizadas. O ex-prefeito Vitor Hugo também é citado como articulador inicial do esquema, tendo, segundo a investigação, firmadoo o pacto com o grupo e delineado o modelo de atuação.
De acordo com o relato de Ariadna registrado na decisão judicial, ela integrava a “Tropa do Amigão”, braço local do Comando Vermelho, desde a adolescência e tinha conhecimento interno sobre a dinâmica do grupo. Ela afirmou ter sido contratada pela empresa Lemon após a empresa vencer licitação com a Prefeitura. As investigações indicam que a Lemon era usada tanto para empregar pessoas indicadas pela facção quanto para movimentar recursos desviados.
O depoimento descreve que as lideranças do grupo determinavam os nomes a serem contratados; esses eram encaminhados a um intermediário que tratava as nomeações com o então prefeito Vitor Hugo, e, após o aval, os currículos eram entregues a Josenilda, que providenciava as contratações. Conforme a peça do Ministério Público e da Polícia Federal, houve, inclusive, acordo entre a gestão municipal e a facção para garantir domínio territorial por meio dessas nomeações.
Segundo apontamentos da investigação, após uma operação policial houve alteração na forma de pagamento das “recompensas”: passaram a ocorrer em dinheiro vivo e por meio de uma “folha paralela” gerida pela própria Lemon. Funcionários mantidos nas funções teriam recebido salários inflacionados para repassar valores à organização, e demitidos teriam recebido pagamentos por fora.
O desembargador afirma que o depoimento de Ariadna foi peça-chave e cita outros elementos probatórios que embasam a investigação: relatórios financeiros, documentos de pregões eletrônicos, pareceres da Controladoria do Município, contratos e aditivos, informações de inteligência da Polícia Federal e do Ministério Público e registros fotográficos de reuniões entre participantes do suposto esquema. A decisão aponta indícios de lavagem de dinheiro e de que a estrutura formal da administração municipal teria sido usada como instrumento financeiro e operacional do crime organizado.
As defesas citadas divulgaram notas negando envolvimento: a assessoria de Edvaldo Neto afirmou que ele não possui ligação com facção e ressaltou o caráter provisório da medida; Vitor Hugo negou conhecer Ariadna e classificou as acusações como armação político-eleitoral; o secretário Rougger Guerra disse não ter relação com os fatos e entregou o cargo na Prefeitura de João Pessoa. A Lemon declarou que atua com ética e se colocou à disposição para colaborar com as investigações; uma mulher que se identificou como advogada da empresa reafirmou atuação em conformidade com a lei. Outras defesas não foram localizadas.
Na operação foram cumpridos 21 mandados de busca e apreensão, incluindo um apartamento do prefeito em Intermares. A Polícia Federal ainda não detalhou os materiais apreendidos. As diligências foram realizadas em força-tarefa entre Polícia Federal, o Ministério Público da Paraíba (por meio do Gaeco) e a Controladoria-Geral da União. A Justiça proibiu o acesso às dependências da prefeitura de Cabedelo por Edvaldo Neto; Vitor Hugo Peixoto Castelliano; Rougger Xavier Guerra Junior; Diego Carvalho Martins; Cynthia Denize Silva Cordeiro; Tanison da Silva Santos; e Cláudio Fernandes de Lima Monteiro.
Com informações de G1



