Secretaria relata 13 tentativas de soltura com documentos falsos e suspeita de uso de inteligência artificial
O sistema prisional da Paraíba identificou ao menos 13 tentativas de liberação irregular de detentos por meio de fraudes documentais, algumas supostamente com auxílio de ferramentas de inteligência artificial, desde dezembro do ano passado, informou o secretário de Administração Penitenciária do estado, Tércio Chaves, em entrevista à TV Cabo Branco nesta terça-feira (19 de maio de 2026).
Os últimos episódios envolveram sete presos de unidades de segurança máxima — Penitenciária de Segurança Máxima Dr. Romeu Gonçalves de Abrantes, conhecidas como PB1 e PB2, em João Pessoa — que chegaram a apresentar alvarás de soltura falsificados e foram chamados para assinar a liberação. Segundo o secretário, os documentos tinham nível de sofisticação que sugere a utilização de técnicas que imitam a similitude com papéis oficiais, o que motivou a suspeita de emprego de IA.
A Secretaria de Administração Penitenciária da Paraíba (Seap-PB) informou que seus protocolos de análise e conferência documental atuaram em todos os casos, impedindo qualquer soltura. Em nota, a pasta detalhou que alvarás e documentos correlatos passam por análise técnica e conferência processual, etapa em que são detectadas inconsistências, vícios e origem inidônea das peças apresentadas.
Uma inspeção interna da Seap-PB confirmou a falsificação dos alvarás apresentados pelos sete presos, que não foram liberados. A secretaria abriu procedimento interno para apurar eventual responsabilidade dos beneficiários e disse ter encaminhado os documentos à Polícia Civil para investigação sobre a origem, autoria e responsabilidades criminais.
O g1 teve acesso aos documentos que apontam assinaturas forjadas dos magistrados da Vara de Execuções Penais. Ao serem consultados, a juíza Andrea Arcoverde Cavalcanti Vaz e o juiz Carlos Neves confirmaram que não expediram qualquer alvará de soltura. A investigação inicial indica que os ofícios falsos teriam sido remetidos pelo Malote Digital do Conselho Nacional de Justiça, levantando a hipótese de uso indevido de credenciais de servidores federais. O CNJ ainda não se manifestou.
Constam como beneficiários dos alvarás falsos, segundo investigadores, os detentos Clodoberto da Silva (Betinho); Diego Alexandro dos Santos Ribeiro (Baiola); Samuel Mariano da Silva (Samuka); João Batista da Silva (Junior Pitoco); Celio Luis Marinho Soares (Celio Guará); Vinicius Barbosa de Lima (O Vini) e Francinaldo Barbosa de Oliveira (Vaqueirinho). Documentos do sistema prisional associam todos eles a posições definidas em organizações criminosas, incluindo lideranças do Comando Vermelho e da facção Bonde do Cangaço, além de integrantes da Nova Okaida. Pelo menos dois dos citados têm penas superiores a 27 anos; outro foi condenado a 19 anos.
O Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) confirmou a tentativa de uso de alvarás falsos e afirmou que não houve qualquer soltura, já que as ordens foram bloqueadas pelos sistemas técnicos e pela atuação humana do tribunal. O TJPB determinou a expedição de ofício ao secretário de Segurança Pública solicitando a instauração de inquérito policial e a designação de delegado especial, além de comunicar a presidência do tribunal, comissões de segurança institucional e de segurança da informação e a Corregedoria-Geral de Justiça. A Justiça aguarda também a conclusão da sindicância aberta pela direção da penitenciária, com ciência ao Ministério Público.
O g1 tentou contato com a Polícia Civil e com as defesas dos citados, sem retorno até a última atualização desta reportagem.
Com informações de G1




