Brasília/RJ — Documentos e mensagens reunidos pelo empresário Alexandre Ferreira Dias Santini relatam favores pessoais, gastos com itens de luxo e tentativas de articulação em órgãos públicos envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo reportagens publicadas pela Revista Fórum, Plato BR e Brasil 247. O confronto entre os dois atingiu um ponto crítico no final de 2023, quando Santini enviou uma mensagem alertando o parlamentar sobre contatos diretos com ministros do Supremo Tribunal Federal.

Encontro e acordo

Após o alerta, Flávio Bolsonaro respondeu com a frase: “Terça às 15:00 no meu gabinete, ok”. Segundo apuração, o encontro resultou em um acordo que pôs fim a cobranças públicas e aos litígios em curso. As ações entre as partes foram arquivadas e Santini voltou a demonstrar apoio político ao senador em redes sociais.

Origem da sociedade

A ligação empresarial entre Flávio e Santini começou no início dos anos 2000, com a parceria na Bolsotini Chocolates e Café Ltda., franquia da Kopenhagen instalada no BarraShopping, no Rio de Janeiro. A sociedade se desfez após as eleições de 2022, em meio a divergências sobre o fechamento da loja. A unidade já havia sido alvo de investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro no âmbito das chamadas “rachadinhas”, investigação que acabou arquivada na Justiça. Santini passou então a cobrar do senador um acerto de R$ 1,4 milhão.

Festas privadas e desgaste familiar

No curso do conflito, Santini teria apresentado à dentista Fernanda Bolsonaro, esposa do senador, mensagens, imagens e outros registros que, segundo ele, comprovariam a participação de Flávio em encontros privados com garotas de programa. Entre os materiais estariam prints de conversas em que Santini combinava festas em hotéis de luxo na Barra da Tijuca, como o Grand Hyatt, que teria diárias de R$ 3 mil.

Em uma das trocas, o empresário escreveu a uma agenciadora: “Fala bb, tudo bem? Eu estava viajando de férias e voltei hj. Vamos marcar outra festinha igual a do grand hyatt. Com os mesmos amigos meus… meu filho + João Pedro. Vc arruma as meninas?”. Ao ser questionada sobre perfis, Santini respondeu: “Vc conhece o q a gente gosta. Me manda as fotos. Tem q ser novidade. Até amanhã te ligo confirmando o local e data certa. Obrigado bb”.

As revelações teriam gerado desgaste familiar. Em mensagem identificada por Santini, o senador escreveu:

“Não sei o que vc está ganhando querendo destruir meu casamento e minha família, mas saiba que Deus te usou pra me fazer um pai, um marido e uma pessoa melhor. Me arrependi, de verdade, de muitas escolhas erradas que fiz na vida e não vou errar nunca mais com a minha família. Peço que se afaste definitivamente da Fernanda, não ligue mais, não procure mais, arrume outra…”

No mesmo recado, Flávio completou: “Nunca imaginei que logo você seria a pessoa a me dar tiro nas costas desse jeito. Vá embora de Brasília, vai viver sua vida, vai ser feliz longe da gente”. Santini respondeu: “Flávio, você tem noção do que você escreveu, e para quem escreveu? Acredito que tenha mandado para a pessoa errada. Abraço”.

Presentes de luxo e pagamentos

O acervo de Santini também descreve pagamentos de aliados a despesas associadas ao senador em Brasília. O advogado Alan Belaciano aparece em registros como responsável por compras de equipamentos para a academia da residência de Flávio que ultrapassaram R$ 90 mil, além da aquisição de um relógio Rolex Submariner Date em ouro branco, comercializado por R$ 305 mil em fevereiro de 2022. Documentos e mensagens indicam que a peça foi adquirida em nome do advogado, mas teria sido destinada ao parlamentar. Flávio já afirmou anteriormente que a compra de equipamentos foi feita por meio de um “empréstimo pessoal” e classificou acusações de chantagem como “infundadas”.

Rede de apoiadores e ações judiciais

O material reúne ainda menções a personagens do entorno, como o ex-assessor Fabrício Queiroz e o advogado Frederick Wassef. Após a anulação de investigações fluminenses, Wassef escreveu a Santini que seu habeas corpus no STF, de número 201965, teria anulado relatórios do Coaf e esvaziado o processo. Santini respondeu: “O poder seduziu e surtou o FB”.

Articulações em órgãos públicos

Além da vida privada e de presentes, os documentos apontam que pessoas teriam procurado Flávio Bolsonaro para tratar de interesses junto a ministérios, à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a tribunais. Santini chegou a publicar mensagens nas redes sociais afirmando possuir provas contra o senador, sem citá-lo nominalmente. Até o momento, Flávio Bolsonaro não se manifestou sobre o conteúdo das reportagens.

Com informações de Polemicaparaiba