Operação a partir do Complexo do Alemão controlava rotina e poder local em Cabedelo (PB)

Investigações policiais apontam que integrantes do Comando Vermelho, atuando a partir do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, monitoravam e controlavam bairros de Cabedelo, no litoral da Paraíba. De acordo com áudios, vídeos e relatórios obtidos pela polícia, a facção instalou um sistema clandestino de vigilância e passou a influenciar decisões locais, intimidar moradores e ocupar cargos na administração municipal.

O principal suspeito apontado pelos investigadores é Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoca. Contra ele foram expedidos 13 mandados de prisão por crimes que incluem tráfico de drogas, homicídios e organização criminosa. Mesmo foragido no Rio de Janeiro, segundo as apurações, Fatoca continuou a coordenar ações em Cabedelo.

Em interceptações, membros da quadrilha relatam a existência de “30 câmeras geral” espalhadas pela cidade; os equipamentos teriam sido escondidos em postes, árvores e em estruturas camufladas com fita isolante. As imagens, afirmam os investigadores, eram transmitidas em tempo real para o Complexo do Alemão, permitindo identificar a movimentação de policiais, agentes públicos e rivais.

Moradores de áreas dominadas pela facção descrevem sensação de medo e abandono. Em vídeos anexados às investigações, homens armados aparecem nas ruas e tiros são disparados ao alto. A polícia relata que o grupo fazia “ponteamento” — mapeamento de territórios para eliminar adversários — e que chegou a acompanhar, por celular, votações comunitárias, interferindo na escolha de lideranças locais.

As apurações também indicam que integrantes discutiram o uso de drones com explosivos para ataques em Cabedelo; o plano não chegou a ser executado no município, segundo os investigadores, embora o emprego de drones com artefatos já tenha sido observado em comunidades do Rio.

O Ministério Público afirma que a facção conseguiu infiltrar-se na prefeitura por meio de indicações para cargos, contratos de terceirização e supostos esquemas de rachadinha. Promotores estimam prejuízo aos cofres públicos da ordem de R$ 270 milhões. Em depoimento, uma mulher citada como gerente financeira disse que funcionários ligados ao grupo eram identificados internamente pela sigla “FTK”, em referência a Fatoca. Mais de 100 pessoas teriam sido nomeadas para funções na prefeitura e na Câmara Municipal.

Autoridades relatam ainda que o Complexo do Alemão e outras comunidades do Rio funcionam como refúgio para foragidos de diversas unidades da Federação. Dados policiais indicam aumento de 63% no número de foragidos de outros estados presos no Rio nos últimos quatro anos; em 2025, foram registradas mais de 1,1 mil prisões desse tipo.

Em notas, a empresa Lemon afirmou empregar mais de 700 pessoas em Cabedelo, disse exigir certidões criminais negativas desde 2024 e afirmou colaborar com as investigações. A defesa de Fatoca contesta os vínculos com os crimes apontados. Advogados de ex-prefeitos citados nas apurações negaram participação ou favorecimento em práticas ilícitas; um dos ex-prefeitos não respondeu aos contatos.

As investigações continuam em curso para apurar a extensão da atuação da facção em Cabedelo e o envolvimento de agentes públicos e privados.

Com informações de G1