Tradição, atuação comunitária e transmissão intergeracional
No Litoral Norte da Paraíba, mulheres do povo Potiguara mantêm a prática da parteria tradicional e repassam conhecimentos entre gerações por meio da Associação de Parteiras e Benzedeiras do Povo Potiguara (Aparbep). A entidade reúne 16 integrantes que atuam de forma voluntária e acompanham gestantes até o momento do parto.
A sede da associação está na Aldeia do Forte, em Baía da Traição, a mais de 80 km de João Pessoa. A casa, dividida em dois cômodos, foi construída com recursos obtidos por meio de edital e funciona como espaço para reuniões, trocas de saberes e atendimentos pré-natais. A maior parte dos partos assistidos por essas mulheres ocorre nas casas das famílias.
Aparecida dos Santos Bezerra, conhecida como Cida Potiguara, tem 55 anos e atua como parteira desde os 16. Ela relata que, embora na infância desejasse ser professora, acompanhou a prática da tia Nancy — hoje com 83 anos e uma das parteiras mais antigas do povo Potiguara — e acabou incorporando o ofício. Desde seu primeiro parto, Cida estima ter participado de mais de 300 nascimentos e descreve a experiência como algo de forte carga emocional e renovadora.
Lindinalva Ferreira da Silva, chamada Pempa, tem 69 anos, é aposentada como agente de saúde e conta com meio século de atuação na parteria. Ao longo de mais de 50 anos, participou de mais de 1.000 partos e ressalta que, embora a parteira auxilie, quem realiza o nascimento é a mulher em trabalho de parto, com a intervenção divina conforme sua crença.
Maria Francisca Marciel, a Penha, aos 68 anos registra mais de 700 partos. Ela lembra que o interesse pela prática surgiu ainda menina, ao presenciar um trabalho de parto às margens de um rio. Penha afirma que desenvolveu capacidade de perceber, no atendimento, quando uma gestação exige encaminhamento hospitalar mesmo sem sinais prévios em exames. Ela também vincula parte de sua atuação a uma conexão com elementos da natureza, relatando episódios em que observações sobre a lua lhe indicaram o desfecho do trabalho de parto.
Josiana Torres, de 48 anos, aprendeu com Penha e tornou-se parteira oficialmente há dois anos. Ela participou de seu primeiro parto aos 17, ajudando a sogra, também parteira, interrompeu os aprendizados em determinado período e os retomou sob a orientação de Penha. Desde que passou a atuar de forma independente já registrou quatro partos. Segundo as parteiras, a transição de aprendiz para parteira ocorre quando a mulher começa a conduzir sozinha os atendimentos e liderar as auxiliares, sem prazo fixo para esse processo.
Além do acompanhamento físico, a prática no território Potiguara envolve rituais, cantos e conhecimentos sobre plantas medicinais, rezas e alimentos que fazem parte do cuidado perinatal. Para as integrantes da Aparbep, a manutenção desses saberes é também maneira de preservar a identidade e a ancestralidade do povo indígena.
A notícia segue com relatos das práticas, da rotina na aldeia e da importância da transmissão intergeracional dos saberes para a continuidade da parteria tradicional no território.
Com informações de G1



