Herdeiros políticos mantêm influência e aparecem como protagonistas nas eleições de 2026 na Paraíba

Sobrenomes com histórico na política paraibana continuam presentes nas candidaturas e pré-candidaturas para as eleições de 2026, mostrando a persistência de famílias que ocupam espaços de poder no estado. Filhos, netos, esposas e sobrinhos de líderes políticos aparecem em cargos executivos e legislativos municipais, estaduais e federais.

O fenômeno tem raízes históricas que remontam ao período colonial e ao sistema de coronelismo no Nordeste, quando grandes latifundiários concentravam poder econômico e autoridade social, influenciando votos por meio de clientelismo e relações de dependência. Intelectuais como o sociólogo Gilberto Freyre já destacavam o papel da família patriarcal como elemento central da organização social brasileira.

O sociólogo Matheus Firmino relaciona a continuidade dessas famílias ao acúmulo intergeracional de poder econômico e político. “Considerando as famílias mais tradicionais, precisamos compreender que elas existem há bastante tempo, um processo de construção, elaboração de manutenção e permanência dessas famílias, de um poder através de estruturas políticas, sociais e culturais que são elaboradas por elas mesmas”, afirmou.

Firmino aponta ainda fatores práticos que reforçam essa permanência, como a proximidade com lideranças locais, o uso de emendas parlamentares para direcionar recursos, vínculos com instituições religiosas e redes sociais históricas. “Essas pessoas têm uma relação política muito mais vinculada ao nome desta família do que necessariamente a uma perspectiva ideológica da política. As famílias fazem de tudo para que os herdeiros, os mais jovens, acabem substituindo os mais velhos quando não tem mais condições jurídicas de estar na gestão, na câmara, na Assembleia Legislativa ou no Congresso”, disse o pesquisador.

No tabuleiro eleitoral paraibano, vários nomes já colocados como pré-candidatos ou prováveis protagonistas pertencem a dinastias políticas estabelecidas há décadas. Entre eles:

Cícero Lucena (MDB) e Mersinho Lucena (PSD): pai e filho do grupo Lucena, com atuação histórica em João Pessoa; Cícero é pré-candidato ao governo e Mersinho busca reeleição como deputado federal. Ambos são sobrinhos de Haroldo Lucena e Humberto Lucena.

Lucas Ribeiro (PP): vice-governador da Paraíba, vai disputar a reeleição; é filho da senadora Daniella Ribeiro, neto do ex-deputado federal Enivaldo Ribeiro e da ex-prefeita Virgínia Veloso Ribeiro, e sobrinho do deputado federal e ex-ministro Aguinaldo Ribeiro.

Hugo Motta e Olívia Motta (Republicanos): integrantes da família Motta com influência no Sertão; Hugo é deputado federal e presidente da Câmara dos Deputados, e Olívia é pré-candidata a deputada estadual. São filhos do prefeito Nabor Wanderley e netos de Francisca Motta.

Wilson Filho (Republicanos): secretário de Estado da Educação, ex-deputado federal e pré-candidato à Assembleia Legislativa; é filho do ex-senador e atual deputado federal Wilson Santiago.

Efraim Filho (PL): atual senador e pré-candidato ao governo da Paraíba; é filho do ex-senador Efraim Morais e sobrinho do deputado George Morais.

Diogo Cunha Lima: filho do ex-senador Cássio Cunha Lima e neto do ex-governador Ronaldo Cunha Lima; é pré-candidato ao governo na chapa de Cícero Lucena.

Veneziano Vital do Rêgo (MDB): pré-candidato à reeleição ao Senado; filho de Antônio Vital do Rêgo e Nilda Gondim, e irmão do ministro do TCU Vital do Rêgo Filho.

Gervásio Maia (PSB): pré-candidato à Câmara dos Deputados; filho de Gervásio Bonavides Mariz Maia e neto do ex-governador João Agripino Filho.

Ruy Carneiro (Podemos): deputado federal e pré-candidato à Câmara dos Deputados; é sobrinho-neto do ex-senador Ruy Carneiro e primo do deputado estadual Janduhy Carneiro.

Olímpio Rocha (PSOL): pré-candidato ao governo da Paraíba; embora tenha relação política com o pai, o ex-vereador Márcio Rocha, não é identificado como integrante de uma oligarquia tradicional do estado.

Firmino também observa um desgaste crescente entre parcela do eleitorado em relação às famílias tradicionais, manifestado no aumento da abstenção e dos votos em branco ou nulos, reflexo de uma descrença sobre a capacidade de renovação política. Ainda assim, diz o sociólogo, a estrutura socioeconômica e o sistema eleitoral oferecem mecanismos que permitem a autoperpetuação dessas elites.

A presença contínua desses sobrenomes nas urnas da Paraíba resulta, segundo especialistas, da combinação entre herança histórica, recursos econômicos, redes locais de influência e a personalização da liderança, que mantém a força eleitoral dessas famílias em diferentes regiões do estado.

Com informações de Polemicaparaiba