Ariadna Thalia, apontada pelas autoridades como chefe do núcleo de lavagem de dinheiro do Comando Vermelho na Paraíba e presa em dezembro do ano passado, declarou em depoimento que o ex-prefeito de Cabedelo, Vitor Hugo, participou de um acordo com o objetivo de preservar um esquema de desvio de recursos que, segundo investigações, movimentou mais de R$ 270 milhões. A depoente afirmou ainda que houve articulação para o afastamento do então prefeito interino Edvaldo Neto no mês passado.
Segundo a Polícia Federal, o esquema consistia em contratar empresas terceirizadas para prestar serviços ao poder público e, com isso, empregar pessoas indicadas pela facção criminosa na administração municipal. Os recursos destinados a essas contratações, de acordo com a apuração, retornavam aos líderes do grupo e a agentes políticos na forma de propina.
A Rede Paraíba obteve, com exclusividade, o depoimento integral de Ariadna, prestado à polícia e ao Ministério Público da Paraíba (MPPB). O material foi utilizado pelo desembargador Ricardo Vital de Almeida, do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), para autorizar o afastamento do então prefeito interino Edvaldo Neto (Avante) e determinar mandados de busca e apreensão contra pessoas ligadas ao suposto esquema e à administração de Cabedelo.
Ariandra relatou que, em dezembro de 2024, a operação da Polícia Federal chamada “En Passant” provocou demissões na empresa Lemon, que havia contratado, sob indicação de chefes do Comando Vermelho, funcionários como forma de inserir integrantes da facção na prefeitura. Entre os indicados mencionados está Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka, apontado pelo Ministério da Justiça como um dos criminosos mais procurados do país. Naquele período, Vitor Hugo era prefeito; em janeiro de 2025, André Coutinho tomou posse.
A depoente afirmou que o acordo foi firmado por Vitor Hugo e mantido por André Coutinho até a operação. Conforme relato, após a intervenção policial, André teria rompido o entendimento e exonerado pessoas ligadas à facção. Em seguida, segundo Ariadna, Fatoka cobrou a manutenção do esquema e Vitor Hugo teria informado que indicaria alguém para assumir a prefeitura e garantir a continuidade das práticas ilícitas. André Coutinho foi afastado do cargo em dezembro de 2025, e Edvaldo Neto passou a exercer a função de forma interina no mesmo mês.
Ariadna disse que, quando Edvaldo assumiu interinamente, o esquema foi retomado parcialmente, com novas contratações. Em troca, a facção assegurava que adversários políticos não realizassem campanha eleitoral nos territórios por ela controlados na Eleição Suplementar de Cabedelo, realizada em 12 de abril. Ela afirmou que o grupo dominava grande parte do município e que determinava quem poderia fazer campanha nos territórios sob seu controle, citando ainda que o vereador Wallber Virgolino não realizou campanha nessas áreas. A depoente acrescentou que o bairro Renascer era a exceção dentro do controle territorial da facção, vinculado ao braço conhecido como “Tropa do Amigão”.
Outros elementos do processo
O desembargador Ricardo Vital considerou o depoimento de Ariadna relevante para a decisão judicial, que também se apoiou em documentos e perícias, entre eles relatórios financeiros, registros de pregões eletrônicos, pareceres da Controladoria Geral do Município, contratos e aditivos de licitações, informações de inteligência da Polícia Federal e do Ministério Público, além de elementos visuais como uma foto de reunião entre envolvidos.
Em relatos anteriores divulgados pelo Jornal da Paraíba, Ariadna disse que integrou a facção “Tropa do Amigão” desde a adolescência e que foi contratada pela Lemon após vencer uma licitação com a prefeitura. O Ministério Público e a Polícia Federal apontaram que a empresa era usada para desviar verbas e empregar indicados da organização criminosa. Conforme o depoimento, as lideranças enviavam nomes a um intermediário, que encaminhava as indicações ao então prefeito Vitor Hugo; depois do aval, currículos eram entregues a Josenilda Batista (Nilda), que realizava as contratações.
De acordo com a peça processual, Josenilda, secretária de Administração e também afastada após a operação, teria atuado no recebimento das indicações, na operacionalização de contratações pela Lemon e na condução de processos licitatórios, com suposta desclassificação de concorrentes para beneficiar o grupo. Ariadna relatou ainda que, após uma intervenção policial, o pagamento passou a ocorrer em espécie e por meio de uma “folha paralela” gerida pela própria empresa, com aumentos salariais para quem permaneceu e pagamentos à parte a demitidos.
Posições dos citados
A defesa de Vitor Hugo, em nota, repudiou “de forma veemente, qualquer tentativa de vinculação do seu nome a organizações criminosas ou ao tráfico de drogas” e afirmou que o ex-prefeito “não sabe quem é Ariadna nem Fatoka” e que “nunca tratou nenhum assunto pessoal nem administrativo com os referidos”.
Camila Holanda, ex-vice-prefeita, disse, por meio de nota, que estranha a tentativa de envolvê-la e que já encaminhou ao Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) documentos que, segundo ela, não apontam qualquer participação. Camila afirmou ainda não ser alvo de investigação e não ter conhecimento sobre documentos relacionados à operação da Polícia Federal.
Edvaldo Neto declarou, em nota, que, enquanto gestor interino, “jamais manteve qualquer acerto com organizações criminosas” e que não houve vínculo desse tipo durante seu curto período à frente da Prefeitura. A defesa de Edvaldo também ressaltou que a menção ao seu nome no depoimento decorre de perguntas do interrogador, sem narrativa espontânea da depoente atribuindo ao gestor participação em reuniões, ordens, pagamentos ou tratativas com facções.
A Lemon informou que Ariadna trabalhou na empresa por sete meses e foi desligada por “não corresponder às expectativas”. A empresa considerou “não ser razoável” que uma suposta chefe de núcleo do Comando Vermelho aceitasse função de auxiliar de serviços gerais, recebendo salário mínimo, com marcação de ponto e descontos por faltas. A Lemon afirmou ter apresentado documentos que comprovam o pagamento de salários por transferência digital em contas-salário, e não em espécie, contestando a afirmação sobre uma “folha de pagamentos paralela”. Sobre a retomada de contratos com a prefeitura durante a gestão interina de Edvaldo, a empresa disse que a ex-funcionária já estava presa quando ele assumiu e havia declarado que estava afastada da facção, o que, segundo a Lemon, compromete a veracidade do depoimento.
André Coutinho também divulgou nota afirmando que “não conhece” Ariadna e que não assumiu “qualquer compromisso não republicano” durante sua atuação política em Cabedelo, reiterando que nunca soube ou compactuou com acordos envolvendo o crime organizado na cidade.
O conjunto de depoimentos e documentos segue sendo analisado pelas autoridades responsáveis pelas investigações e pela Justiça.
Com informações de Jornaldaparaiba



